o buraco é láá em baixo, colega…

(terceiro gole)

não, não é o melhor dos mundos, mas os problemas são outros. e os problemas do sistema de ensino do interior do amazonas não são suas diferenças, mas justamente suas semelhanças com o resto do país. e não adianta bolar soluções que custem vinte vezes o orçamento, já que os podres poderes não parecem querer taxar a cocaína que desce o rio ou acabar com a corrupção dos coronéis. me proponho aqui a citar um par de ideas, não necessariamente simples, nem necessariamente novas, mas que devem caber no orçamento oficial e que já seriam de grande ajuda.

.material didático

não sei quem foi o burocrata tapado, e minha internet tefeense me impossibilita de buscar, que um dia decidiu que a maior parte dos gastos das escolas deveria ser em investimentos “palpáveis”. eu não sei o que o dadá-maravilha dos carimbos no mec queria com isto, mas sei que ajudou o brasil a criar um dos maiores mercados de livro didático e a diminuir consideravelmente os gastos em investimento nos professores, “não palpáveis”. as comunidades que conheci, no entanto, não possuíam este problema: em maraã os livros mais novos eram de 2001, em alvarães sequer existem.

quem dera o maior problema do material fosse sua idade. este material é o mesmo utilizado nas grandes cidades, homogeneizado de norte a sul. e daí? bom daí que se reportam a uma realidade outra. os exemplos do livro de matemática são com maçãs e morangos, os textos falam de números de apartamentos, ônibus, telefones e ruas. quase arranquei algumas páginas dos livros de história antes de entregá-los aos estudantes: temia que os exemplos de índios dos livros ofendesse alguém. praticamente todos possuíam parentes em aldeias próximas, e nenhum deles se parecia com aquele curupira branquelo e ruivo que ilustrava o livro didático com aquela pegada freyreana das “três raças”. o livro de ciências começava pedindo ao professor para ligar o aparelho de som com “sons da natureza”, para relaxar os estudantes e os distanciar da vida agitada dos “sons da cidade”. alguém chama o arnaldo césar coelho pra mim, deve ter alguma regra clara contra isto.

o material de alfabetização chegava a ser cruel. uma criança de uma cidade grande está em contato com letras vinte e quatro horas por dia. elas brilham na tv, andam nos ônibus, se multiplicam nos jornais, ilustram nas revistas, crescem nos outdoors e até abraçam nas roupas. todos as comidas, utensílios e produtos da casa estão cheio de letrinhas, marcas, modos de usar e etc. em uma comunidade ribeirinha é provável que a criança só veja letras sazonalmente, na escola.

é impraticável utilizar os mesmos livros. o material didático precisa ser contextualizado, precisa ser pensado para as especificidades locais e, mais que tudo, precisa ser debatido e contar com a participação direta de professores e comunitários. estou certo de que com a verba não gasta em novos materiais as prefeituras podem produzir materiais próprios, de preferência com parcerias com as universidades federais e estaduais. e seria um “investimento palpável”.

.capacitação

os professores precisam morar nas comunidades. isto é uma questão de logística mas também serve como garantia de um contato com a dinâmica local, para o processo escolar ser interiorizado, deixar de ser algo injetado na comunidade, ganhar autonomia e passar a ser produzido ali. é tambem um fator preponderante para os comunitários. nisto as semed estão certíssimas. mas é preciso que a licenciatura deixe de ser um trabalho temporário, precarizado, um bico.

atualmente a prefeitura de maraã demite os professores em dezembro e contrata em fevereiro, o que faz com a maior parte dos professores mantenha outro emprego temporário, principalmente mototaxi. sem estabilidade, sujeitos às mudanças de humores das eleições, poucos se vêem como professores, e praticamente não há investimento na capacitação. concurso público? nem pensar. em alvarães sequer assinam carteira, é na base da “folha de pagamento”. bom, eu sei que exigir estabilidade e concurso público contraria o que eu havia dito sobre não exigir demais do orçamento municipal, mas pera lá, este já devia ser um ponto pacífico há uns oitenta anos!

eu disse que o multisseriado e a transdisciplinaridade involuntárias e obrigatórias daqui abrem diversas possibilidades interessantes, mas para que elas se concretizem é preciso que sejam pensadas e trabalhadas com tempo. não adianta avisar o professor para ir para esta ou aquela comunidade com três dias de antecedência, e trocar todo o efetivo das comunidades de ano pra ano.

.currículo

bom, agora sim temos um problema, uma destas coisas absurdas que deveriam chocar a todos… mas que ninguém liga. por que diabos eu devo ensinar unificação alemã? bom, é um tema instigante pra mim, claro, mas não é este o ponto, é?

ivan illich, no sociedade desescolarizada, tem um uma sacada genial. ele pergunta, qual a primeira coisa que se aprende na escola? não é soma, não são sílabas, não é ciclo da água… o que é? a primeira coisa que se aprende na escola é a sentar e calar a boca. mas o mais cruel, o mais vil, é o segundo aprendizado da escola. a segunda coisa que se aprende é que o que você quer aprender não é tão importante quanto o que um burocrata distante disse que você deve aprender. neste ponto o aprendizado já está completamente castrado, já que seu principal motor, a vontade de aprender isto ou aquilo, foi desligado. no caso específico destas comunidades esta sensação é ainda pior, e a anomia provocada pela escola ainda mais gritante, já que é somente dentro da escola, aquela construção diferente na comunidade, única de alvenaria, quente e de janelas pequenas, que aquele conhecimento faz sentido.

mas esqueçam dos parâmetros curriculares nacionais e perguntem aos estudantes o que eles querem aprender. na comunidade onde eu estava, por exemplo, era óbvio que havia um grande interesse em barcos e seus motores, assunto cotidiano. com algumas semanas de preparação seria possível organizar um módulo em que fosse possível agenciar conhecimentos de matemática, química, física, geografia e até história estudando os barcos da comunidade, e com interesse garantido dos estudantes. tive uma boa experiência na eja fechando o livro didático sobre vargas e abrindo o paradidático do carlos fausto e o senhores dos rios. as estudantes adoraram ouvir as descrições dos exploradores, perceber as semelhanças das formas de ocupação daquela mesma várzea quinhentos anos antes.

mas os currículos vem de brasília, são filtrados pelos materiais didáticos disponíveis e obedecidos pelos estudantes, quando deveriam partir das vontades dos estudantes, ser catalizados pelas habilidades dos professores e obedecidos pelos burocratas.

olho pro meu copo. está vazio. chega de café por hoje.

~~x~~
escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente em 12 de abril no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas

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o buraco é lááá em baixo, colega…

(segundo gole)

muita gente se assustou com a idéia do multisseriado, mas para mim é uma solução excelente. não existe, de fato, um bom motivo para agrupar os estudantes de acordo com a data de nascimento, não é como se eles fossem produtos, organizados por lote e data de fabricação. há diversas outras formas mais inteligentes de agrupá-los, de acordo com seus interesses ou dificuldades, por exemplo. ou poderíamos deixar que eles mesmo se organizassem. a escola da ponte, famosa experiência pedagógica libertária portuguesa, salvo engano, trabalha em um regime que poderíamos chamar de mulstisseriado, e várias destas escolas alternativas caras tem experimentos nesta linha. o multisseriado resolve, por exemplo, a tal marginalização promovida pela repetência, visto que os estudantes permanecem na mesma turma, embora sob cuidados diferenciados.

no caso de maraã, e dos demais municípios do interior, isto provavelmente foi determinado mais pelas circunstâncias que por alguma opção político-pedagógica. na comunidade onde eu estava devíamos ter cerca de setenta estudantes matriculados, uns quarenta e cinco frequentes, entre jardim de infância, primeira a sexta séries e duas turmas de EJA, para três professores. com o multisseriado possuíamos quatro turmas, mas se os dividíssemos em séries específicas passaríamos a nove, algumas com um ou dois estudantes, duplicando a carga horário dos professores e os gastos do município. com meus dois cargos eu possuía trinta e cinco estudantes matriculados, uns vinte e cinco deles presentes. agora considerem que um professor de história do estado de minas gerais, com um cargo de dezoito horas semanais, tenha que lidar com nove turmas de quarenta e cinco estudantes. vamos supor que este professor mineiro seja especialmente ingênuo, o suficiente para se arriscar a avaliações dissertativas, assumindo que na base de marcar x não se anda muito. imaginem que ele peça aos estudantes um pequeno trabalho ou uma redação, nada muito grande, uma página. bom, este professor acaba de ganhar quatrocentas páginas para corrigir no fim de semana. se ele tiver dois cargos, como eu aqui e como quase todos os concursados depois dos cortes do aécio, ele tem o dobro disso. agora me digam, maraã ainda parece tão absurdo?

o fato de um mesmo professor dar todas as matérias tampouco deveria ser assim tão assustador. de primeira à quinta séries a maior parte das escolas sequer contrata especialistas em suas disciplinas, é o império dos pedagogos. disciplinas como estudos sociais, ou ciências, sempre foram muito bem aceitas, e no entanto não eram muito diferentes disto: professores ensinando mais de uma disciplina, em áreas que nem sempre tinham domínio. são experiências que poderiam abrir pontes de transdisiplinaridade, embora, via de regra, não o fizessem. novamente, o modelo de maraã provavelmente decorre da necessidade. História, Ciências, Matemática, Português, Geografia, Educação Física, Língua Extrangeira, temos sete matérias, nove se trocássemos Ciências por Biologia, Física e Química para as séries avançadas, dez se incluíssemos Artes, sempre esquecida. considerando que no parágrafo anterior havíamos duplicado os custos com professores da escola comunitária dividindo os estudantes em séries específicas, se exigíssemos um professor por disciplina neste parágrafo – e eu espero muito que o ministro esteja lendo isto – chegaríamos a conclusão de que a pequena maraã devia ter seu orçamento com professores multiplicado por algo entre quatorze e vinte vezes.

mas o buraco, pra variar, é ainda mais em baixo. mesmo que maraã tivesse entre quatorze e vinte vezes mais verba para educação, seja acabando com a corrupção dos coronéis, seja taxando toda a ocaína que desce o rio japurá sob as toneladas de brita das balsas, como vocês esperam convencer todos estes professores a se mudar para as comunidades para lecionar sete ou oito horas-aula por semana? a não ser que estejamos falando de uma comunidade de tipos-ideais soviéticos, onde quem torra a farinha também leciona química, onde os caçadores sejam geógrafos graduados, os pescadores biólogos e os que trabalham no roçado discursassem sobre linguística construtivista, a não ser que estejamos falando disto, não há o que falar.

o copo na minha mesa, impaciente com a lenga lenga deste texto longo longo, cheio até o topo com um café que só esfria, posto que eu só escrevo, me interrompe. “então é isto? tá tudo bom do jeito que tá? é o melhor dos mundos, cândido?” eu dou um gole. não, claro que não.

~~x~~
escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente em 11 de abril no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas

o buraco é láááá em baixo, colega…

um texto para meu copo de café
(dividido em três goles)

recebi muitos comentários sobre a descrição que fiz da escola na comunidade onde estive. sobretudo muita gente assustada, impressionada. uma amiga jornalista queria fazer uma matéria sobre o assunto, outra, socióloga, fez com que o post chegasse até o ministro da educação.

[rá! eu que passei boa parte da minha vida escolar esperando que meus textos desaforados chegassem aos ministros da educação, fui conseguir algum sucesso só no mais despreocupado deles!]

a falha é minha, talvez tenha pesado a mão num certo exotismo, compromissado que estava mais em mandar notícias para pessoas queridas que em descrever a situação escolar. o fato é que o que alguns identificaram como problemas no sistema educacional do interior do amazonas, são na verdade soluções bem interessantes. não me entendam mal, há muita coisa a ser denunciada, mas é preciso olhar pro fogo, não pra fumaça.

* * *

considerando as problemáticas de cada caso, algumas das opções de um município como maraã são muito mais inteligentes e criativas que as solucionáticas dos dadá-maravilha que carimbam pela secretaria de educação de minas gerais por exmplo.

imaginem a dificuldade de se organizar escolas em pouco mais de uma centena de comunidades com cerca de dez casas cada (mas podendo variar entre quatro e cem!), onde pouquíssimas pessoas passaram por algum processo de escolarização. tenham em mente que a única forma de se chegar a estas comunidades é pelos rios, horas de distância umas das outras. imaginem ainda que estas comunidades não sejam estáticas, que a migração seja extremamente comum e que o tamanho das comunidades possa variar, ou até mesmo que elas possam se desfazer, ou que uma nova possa surgir em um outro entroncamento de rios. este fluxo permanente, no entanto, não significa que os comunitários estejam prontos a aceitar os desmandos da secretaria de educação (semed), muito pelo contrário, cada mudança precisa ser detidamente conversada e acordada. entre os professores há o caso famoso de uma presidenta de uma comundiade que esperava a secretária de educação de borduna em mãos. exemplo que alguns de nós esperávamos ser seguido pela outra presidenta.

não se pode esquecer do fluxo do rio! nas cheias os estudantes vão pras aulas de canoas, mas em cheias muito grandes, como no ano passado, as aulas precisam se interrompidas. quando as secas são muito fortes, como a última, muitas comunidades ficam isoladas, em algumas os pescadores precisam de gastar mais tempo na pesca, dificultando a presença deles e seus filhos na escola. creio que nas comunidades em terra firme haja algo semelhante com a caça e o roçado. durante alguns períodos do ano em que a comunidade se mobiliza para alguma produção específica, pesca manejada, chocolate ou castanha por exemplo, a presença em sala de aula é mínima. o fluxo do rio também é determinante para o contato com as cidades, e isto inclui a chegada ou partida de professores, víveres e materiais para a escola. sem contar o diesel, fundamental para o motor de luz que, em situações normais, garante escassas três horas de luz diárias.

* * *

faço uma pausa para passar um café.o texto está ficando muito longo, será que alguém ainda está lendo? será que o ministro leu? na verdade importa pouco, escrevo para meu copo de café.

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escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente em 10 de abril no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas

sms

não eram nem onze horas quando meu celular apitou com uma mensagem.

oi, na realidade já colocaram outra pessoa na vaga k seria sua, estão tentando lotar vc em outra comunidd, o [fulano que havia gostado do meu currículo] tá ate pensando em pedi a conta. é como disse, sec[retaria de educação] não tem autonomia, quem manda e desmanda é o prefeito e ele não kr gent formada é + comodo p ele.

nem um mísero bom dia a efeito de lubrificante. e foi assim que tomei minha terceira porta na cara.

quem me mandava a mensagem era uma funcionaria da Secretaria de Educação que havia simpatizado comigo. Mais tarde trocamos alguns emails e fui informado que o todo-poderoso prefeito a estava transferindo para uma comunidade longínqua. Era uma retaliação, já que ela havia ousado convocar o Conselho de Educação para discutir alguns problemas na Secretaria, incluindo a completa inexistência de livro didático. Não perguntei, mas tive a impressão de que a comunidade devia ser chamada Nossa Senhora da Sibéria.

também fui informado que não havia ninguém graduado na Secretaria de Educação do município, e que o prefeito queria que continuasse assim.

Como eu dizia, o multisseriado é o menor dos problemas do interior do Amazonas.

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escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente em 09 de abril no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas

Artesanato

cenário: avião. os dois personagens estão sentados lado a lado.

personagens: G. – tefeense, ativista e com a caboclice estampada na cara.
P. – policial civil, branco, de algum lugar ao sul do Piauí.

P. – você é do Amazonas?
G. (com preguiça) – sou.
P. – tem muito artesanato lá na sua terra?
G. – tu tens um celular aí?
P. – tenho. aqui, ó.
G. – este aí é artesanato lá da minha terra. da zona franca de manaus.
P. – :S
G. – (:
P. – (…)

verdade verdadeira.

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escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente em 27 de março no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas

conversa

professor: comeste fogo, foi?
pau d’água: comi foi tua mulher!
professor: tu achaste que era minha mulher, mas comeste foi cutia!

e todo mundo ri. eu rio também, mas com aquela sensação de que não entendi toda a graça.

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escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente em 25 de março no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas

causos

um dos professores que transitou por aqui, o Tiô, é um contador de causos. tem vinte e quatro anos e uma esposa grávida esperando por ele na cidade. é professor há dois anos e foi lotado para uma comunidade em terra firme, onde será o único professor dos sete estudantes locais. foi mal avaliado em sua última comunidade, aparentemente por uma fofoca sobre ter fotos pornô em seu celular. ele conta que só vai usar cinto no dia em que topar com uma onça e roubar o rabo dela. conta também que em uma comunidade onde trabalhou tinha poooouco carapanã, tanto que durante um velório que invadia o fim da tarde, apareceram tantos, mas tantos, que a velha senhora morta se levantou e pulou no rio.

a comunidade onde ele daria aulas este ano ficava distante umas duas horas de rabeta por um igarapé. fomos até lá para uma reunião com a comunidade. na ida me deixaram pilotar a rabeta, emprestada de um comunitário, e logo que encostei no motor um boto saltou bem na minha frente, enchendo meu coração de hippiece. na comundiade deviam ser umas sete casas, e o igarapé deles secava vez ou outra, aumentando ainda mais o isolamento. a riqueza da terra firme chama a atenção. vi logo vários pés de fruta e ouvi sobre as cutias, queixadas e antas que eles caçavam bem perto. a barulhada dos passáros era incessante e vi uma arara tão grande que mais parecia um gavião.

na volta passamos no flutuante da presidenta da comunidade pra comer um mingau de banana e ela nos convenceu a ir até seu sítio, onde enchemos nossa rabeta de limão, tucuman, cana e castanha.

mais tarde Tiô nos contou de um velho de Maraã, caolho, rico e com duas esposas na mesma rua. Tiô nos contava que o velho sempre contava da vez em que foi caçar uma onça que estava comendo seu gado. ele espreitava na floresta de noite quando viu a a onça bem pertinho, detrás da castanheira onde se escondia. o velho caolho, rico e com duas esposas na mesma rua agarrou o rabo da onça e girou, girou, até que a pele dela soltou todinha, e ela, assustada, foi se esconder atrás de outra castanheira, tapando as vergonhas com as patas.

nos dias que seguiram minha gula pelas castanhas, tucumans e canas daquele dia foram punidas com uma inclemente caganeira. de fato, a única coisa da qual eu senti mais falta que pessoas, foram fibras.

ai, como eu senti falta das fibras!

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escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente em 21 de março no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas

La Commune

eu não havia percebido, mas o clima na comunidade estava tenso: a comunidade havia decidido pela permanência de um professor do ano passado, mas a secretária de educação, armada de caneta e carimbo, decidiu pela transferência do professor.

a comunidade tem trinta e nove construções, contando os flutuantes e as casas públicas (escola, casa do professor, casa de reuniões e etc.). existem duas igrejas, uma batista e outra deus é amor, e dizem os comunitários que vem um pastor montar uma assembléia de deus. as construções são organizadas lado a lado à beira do rio, para facilitar o acesso à água.

uma senhora faz um pão delicioso toda madrugada. além do pão ela vendecocão – um refrigerante genérico – e mikito – um chips de milho que todo mundo só chama de milito. lá no fim da comunidade, depois de uns pés de cana, seu acelino vende de tudo. sua rede fica suspensa entre cebola, açúcar, biscoitos e óleo de soja. só não vende álcool, que é proibido na comunidade. as crianças dizem que ele tem um bolão de notas assim ó, e que ele morava mais longe, até que recebeu algumas visitas de onça.

no fim da tarde todos os homens jogam bola e as mulheres se reúnem para conversar, com os filhos menores a tira-colo. as marcas da última cheia na parede das casas de palafita tem pouco mais de um metro acima do piso, mas me contaram os comunitários que nestas situações costumam subir o piso (sim, isto mesmo) até a altura necessária para não se molhar. neste período vão para a aula de canoa. a escola é a única construção de alvenaria, talvez por isto a mais quente. são duas salas de aula, uma secretaria, uma cozinha com dispensa anexa, dois banheiros e duas pequenas suítes. também é a única construção com banheiros, fossa e com uma caixa d’água, enchida durante as três horas de luz elétrica diárias e esvaziadas antes do meio dia. a antigas escola, menor e de madeira, se transformou na casa dos professores, onde moram alguns e onde cozinhamos, conversamos e jogamos purrinha valendo chulapa para passar o tempo.

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escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente em 19 de março no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas

TEC! ZIP!

eu pulo do ajato. duas mochilas, umas maleta, uma caixa, um balde e uma cachorra pulam comigo. basta eu tocar o chão pra escutar TEC! ZIP! o primeiro som era uma das alças do velho mochilão arrebentando, o segundo a cachorra se livrando da coleira e dando linha. ótimo, penso. deixo algumas coisas na beira e subo o morro com o resto. vejo algumas senhoras me acompanhando de algumas janelas. subo, me apresento para uma delas (oi! tudo bem? bem. meu nome é matheus, sou professor, sabe onde posso deixar minhas coisas? os professor fica tudo ali, ó, na escola, tão ali agora. posso deixar minhas coisas aqui enquanto busco o resto? pode, eu olho.) e deçodesço para buscar o resto.

na escola de alvenaria sou recepcionado pelo diretor e dois professores, todos simpáticos. me mostram meu quarto, num canto da escola, quente pra burro mas com banheiro! me informam que não terei um cargo, mas três. EJA, multisseriado e pro-info. também dizem que o salario real é menor que o esperado, não sei ainda se por culpa do governo – INSS, FGTS e etc. – ou se apesar do governo – e aquele tal piso salarial?

no meu quarto dou uma varrida leve e expulso metade das aranhas. deixo porém algumas dezenas, na esperança de que elas retribuam a gentileza comendo outros insetos. na porta do banheiro um bicho me espia. é imenso, comprido, preto, tem várias patas e duas longas antenas. eu o espia em retribuição. ficamos assim por longos minutos, nos avaliando, nos medindo. ele mexe as antenas e eu alcanço a vassoura. que porra de bicho é este? merda. merda. será que pica? merda. na minha cabeça repasso todos os programas de tv sobre insetos nojentos. saio do quarto na esperança de ver alguem de bobeira. nada. o diretor dorme e o outro professor dá aulas. demoro uns 5 minutos pra concluir: é uma barata. a maior de todas. a mãe de todas. uma barata. merda. mato esta e depois mais 3, menores e com mais cara de barata. uma quinta foge para a floresta e eu grito “e conte pras outras da sua laia o que viu por aqui!” me arrependo do grito. matei uma média de 3 destas por dia.

começo uma faxina mas acaba a água da caixa e, cansado demais para descer à beira, peduro rede e mosquiteiro e macunaímo “ai que preguiça”.

amanhã vamos dar uma faxina na escola e dar um jeito nos morcegos que ocuparam o sótão e cuja bosta escorre por algumas paredes.

me convidam para jogar bola, mas declino, culpando a viagem. hora ou outra vou ter que jogar, penso, e logo macunaímo outra vez.

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escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas

vim, vi, perdi.

vim, vi, perdi.

infelizmente percebi que me manter com os cargos de professor na comunidade ou não é sustentável ou não é responsável.

ao contrário do cargos nas cidades, nas comunidades o professor não é responsável por uma matéria, mas por uma turma. no EJA preciso ensinar biologia, matemática, geografia, história, português e inglês. no tal multisseriado a coisa complica ainda mais, já que tenho, na mesma sala, estudantes da segunda à quinta séries, com idades entre seis e quartoze anos. dos trinta estudantes uns seis deviam saber ler e algo próximo disto sabia somar. alfabetizar não é tarefa fácil, principalmente para alguém que nunca sequer refletiu no assunto.

meu terceiro cargo merece uma nota especial. se trata de um tal Pro-Info, e me disseram que deveria ensinar os primeiros passos das ferramentas básicas da informática: office e internet. o pro-info já funciona em algumas comunidades-pólo, e deveria estar funcionando nesta há anos, e para isto já haviam sido comprados cinco computadores, um gerador próprio e uma power antena parabólica para a internet. como aqui, em várias comunidades o curso nunca chegou a começar. a comunidade onde estou lotado, no entanto, caiu de ser sorteada para a fiscalização no dia quinze de março, e agora a secretaria de educação tenta montar o curso às pressas.

minhas dificuldades de prática poderiam ser resolvidas com algum esforço, verdade, embora eu tivesse que abdicar de meu projeto bacanudo de história-oral-regional-multimídia-supimposa. mas a dificuldade real era outra: meus horários impediam que eu fosse a tefé nos fins de semana. na verdade, pelo calendário escolar eu teria quatro oportunidades de descer o rio: quinze dias de férias em julho, a partir de dezessete de dezembro e um feriado de três dias no segundo semestre.

se fico na comunidade até o fim do ano, me mantenho distante e tenho que ensinar coisas que não sei da forma que não me interessa. ficar distante seria razoável pra mim até maio, afinal de contas tefé não possui assim tantos encantos, mas em junho deve chegar uma moça bonita por lá, e não quero passar o resto do ano longe dela. não seria sustentável.

se fico na comunidade até o meio do ano e daí peço minhas contas eu resolveria boa parte do problema da distância e ainda faria um bom pé de meia. (ah, não comentei disto, né? cada cargo paga mil e duzentos pilas, mais duzentos de auxílio-rancho). no entanto não é fácil conseguir substitutos, e é provável que a comunidade ficasse sem professor durante o segundo semestre. não seria responsável.

converso com meu diretor e decido pedir minhas contas durante a semana da reunião pedagógica, quando todos os professores do município estarão juntos e a secretaria ainda terá facilidade em me substituir.

conto para algumas das crianças com quem brincava de quebra-cabeças, que respondem sempre espartanos. baixam os olhos, fecham a cara e, soltam umvai, é?, ou um hmm. mais tarde, quando já estava na cidade, encontro com uma comunitária, estudante minha de EJA e mãe de um estudante do multisseriado. uns dias antes havia me presenteado com um delicioso bolo de mandioca. ofendida, me pergunta se era verdade que eu não retornaria.

arrisco dizer algo sobre eu voltar só para visitar, em feriados ou… mas aborto antes de terminar. mesmo verdade, ela não acreditaria. baixo os olhos, fecho a cara, hmm. ela, menos maternal que eu, não se sensibiliza.

* * *
update
consegui um trampo e vou pro interior amanhã cedo.

vou pra uma outra comunidade, de outra cidade, que fica bem mais perto e pode me permitir, se der sorte, vir a tefé todo fim de semana. provavelmente a cada duas semanas.

vou receber praticamente um quarto do salário, e trabalhar praticamente um terço, mas com coisas mais divertidas. na outra eu tinha 3 cargos e tinha que dar aulas de TODAS as matérias, nesta eu tenho um cargo e vou dar aulas só de história. Também não tenho que usar o livro didático – que na outra comunidade era um trem cabuloso escrito no governo fhc – e vou poder rachar naquele meu projeto maluco de história-oral-regional-multimidia-bacanuda!

provavelmente vou ficar no escuro por pelo menos duas semanas. daih dois dias de comunicação e volto pro lado escuro

* * *
update2

me deixaram esperando por 3 horas o barco pra comunidade. também não assinam carteira, é tudo por “folha de pagamento”. não fui hoje. não sei pra onde este barco vai…

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escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente em 23 de março no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas