Religião e sindicatos na história de Belo Horizonte

Entre as novas ideias que chegaram à Minas Gerais entre o final do século XIX e o início do século XX, uma nasceu somente seis anos antes da inauguração da nova capital do estado. Em 1891, o Papa Leão XIII lançou a encíclica chamada Rerum Novarum ou, em bom português, Das Coisas Novas, através da qual a Igreja Católica entrava oficialmente no debate sobre a tal “questão social”. A Rerum Novarum reconhecia alguns dos méritos das lutas operárias do período, e foi o início do que ficou conhecido como “opção preferencial pelos pobres” dentro da Igreja Católica.

 A Confederação Católica do Trabalho (CCT) foi o principal resultado da novas coisas da Igreja Católica em Belo Horizonte. A CCT foi criada em 1919 e, apesar do nome, era mais uma central sindical católica que uma confederação. Já existiam na cidade várias associações de socorro-mútuo, cooperativas e sindicatos profissionais, como a Associação Beneficente Tipográfica (1891),  a Liga Operária (1900), a Associação dos Empregados no Comércio (1908) e a Liga dos Operários (1917), além das diversas associações de imigrantes, mas a CCT foi a primeira da cidade a colocar a religião em primeiro plano.

 Os movimentos socialistas do período manifestavam um laicismo militante que afastava parte do trabalhadores católicos, e a Confederação Católica do Trabalho trouxe a estes trabalhadores um formato conciliador de luta sindical. As irmandades católicas e Ordens Terceiras já eram formatos de agremiação conhecidos pelos mineiros, e por volta de 1925 a CCT já tinha quase mil filiados e representava cerca de duas dezenas de sindicatos, entre eles os Ferroviários, os Empregados em Fábrica de Tecidos e os Empregados da Central, além de Pedreiros, Carroceiros, Empregados em Açougue e Empregadas Domésticas.

 A Confederação Católica do Trabalho publicava semanalmente o jornal O Operário, onde eram tratadas tanto as questões estritamente políticas dos operários do período quanto a moral católica. A CCT teve um papel fundamental em Belo Horizonte nas lutas pela jornada de trabalho de 8 horas e na garantia do descanso dominical, mas foi na questão habitacional que foi mais importante. Em 1922, O Operário publicou um apelo ao Conselho Deliberativo da cidade:

 “Belo Horizonte possui áreas extensas, inteiramente desaproveitadas. De vez em quando, algum felizardo, por qualquer manobra, obtém grandes latifúndios de graça ou quase de graça. Há pessoas que possuem 60 ou 80 mil metros quadrados de terra que não podem edificar, nem cultivar. Estão retendo essas grandes propriedades exclusivamente por especulação, para revendê-las, mais tarde, por bom preço. Se isto se fez para gente rica, com graves prejuízos para o patrimônio municipal, não é fora de razão que a Prefeitura conceda uma nesgazinha insignificante, fora do centro, a uns pobres operários que trabalham para o engrandecimento da cidade.”

 Neste período, a administração municipal cedia terrenos aos que se comprometessem a atender as exigências de prazos e modelos de construção. Como nem sempre conseguiam cumprir as metas estabelecidas pelos burocratas, a população construía moradias provisórias, as cafuas, mas nem sempre isso evitava o desalojo.

 A CCT usava da conciliação como estratégia discursiva e evitava os tons de exigência e ameaça que eram comuns na imprensa operária, variando entre o apoio e a ruptura ao poder constituído. Em sua defesa do direito à moradia dos belo-horizontinos pobres, a Confederação trabalhou também para criar a Cooperativa Constructora de Casas Operarias Limitada, que financiava construções de casas, além de um serviço de assistência jurídica para auxiliar a revalidação da posse dos lotes de operários.

A Confederação Católica do Trabalho era chamada de “amarela” pelos sindicalistas socialistas e anarquistas, e acusada por parte da historiografia de ser “dócil” demais e de desviar os trabalhadores de sua causa principal. A partir de 1930 o catolicismo passou por novas mudanças de orientação no Brasil, se aproximando novamente do Estado, e adotando a estratégia de adesão às propostas governamentais que ficou conhecida como “circulismo”, e que acabou por substituir a antiga Confederação.


A experiência deste tipo de prática católica foi importante para o crescimento do sindicalismo em Belo Horizonte e fundou bases sólidas para a construção, décadas depois, da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiais de Base  na cidade. É importante perceber ainda que foi no mesmo período em que as elites mineiras se esforçavam para lapidar o mito da “Minas Católica”, que parte da população mais pobre trabalhava para a construção de uma concepção diferenciada de catolicismo, popular e militante.

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publicado originalmente em 04 de dezembro de 2013 no http://www.bhaz.com.br

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Uma cidade de recém-chegados

A Nova Capital de Minas Gerais foi formulada e construída em um período de intensas mudanças no país. O fim da escravidão, da monarquia, a imigração em massa de europeus, as novidades tecnológicas, o avanço científico e, principalmente, as tais “novas ideias” marcaram profundamente Belo Horizonte. A crise na Europa veio ao encontro do projeto racista de “branqueamento” pautado pelas elites brasileiras e catalisou a vinda de milhares de europeus para o estado.

Em suas Reflexões Sobre o Exílio, o filósofo Edward Said afirma que a guerra moderna, o imperialismo e o totalitarismo fizeram de nossa época “a era do refugiado, da pessoa deslocada, da imigração em massa.” A diferença de outros períodos, segundo ele, seria principalmente a quantidade: nossa era foi pródiga em guerras, crises e revoluções, causando o deslocamento forçado de pessoas em uma escala inédita.

De 1888 a 1898, Minas Gerais adotou uma série de políticas de incentivos e subsídios para a imigração. Houve até mesmo uma Superintendência da Emigração na Europa, que divulgava em Gênova as vantagens da emigração. Atraídos pelas oportunidades da Nova Capital, muitos imigrantes vieram a Minas servir como braços na construção civil ou como importadores, utilizando seus contatos de além-mar. Entre 1894 e a inauguração da cidade entraram, oficialmente, cerca de 50 mil estrangeiros no estado. Somente em 1896 vieram cerca de 19 mil italianos, 3 mil espanhóis e 400 portugueses. No início do século XX, os estrangeiros representavam 15% dos habitantes da cidade.

A Hospedaria de Imigrantes, no antigo bairro da Imigração (atual Santa Tereza), recebeu milhares deles pelo menos temporariamente. O Hotel Floresta, fundado por um polaco e um espanhol, também recebeu inúmeros imigrantes. A maior parte dos italianos pobres acabou por se fixar inicialmente na zona operária do Barro Preto, mas a especulação imobiliária cuidou de dispersar os moradores do bairro ao longo dos anos.

Durante algum tempo a Rua dos Caetés, no antigo Bairro do Comércio e hoje Hipercentro da cidade, ficou famosa pela qualidade das roupas e tecidos trazidos pelos imigrantes que ali estabeleceram seus comércios, principalmente sírio-libaneses – sempre tratados por turcos – e judeus. Muitos imigrantes ainda trabalhavam como vendedores ambulantes e mascates. O comércio da região mudou de cara quando foi invadido por produtos importados de outros lugares mais baratos, mas de pior qualidade, forçando os antigos comerciantes a venderem seus pontos.

Em Belo Horizonte, apesar desse grande fluxo, os imigrantes não se organizaram em bairros próprios, como em São Paulo e Curitiba, por exemplo. Os imigrantes que chegavam às cidades brasileiras no final do século XIX encontravam cidades prontas, com bairros consolidados e relações de vizinhanças estabelecidas. Nem mesmo os habitantes do antigo arraial eram, de fato, nativos do novo município, posto que a maior parte do arraial já havia sido destruída e não restava muito daquela paisagem. Eram todos, afinal, recém-chegados à nova cidade.

A Comissão Construtora agiu dissolvendo as diferenças de origem e organizando seus habitantes de acordo com sua condição social. Os imigrantes foram principalmente divididos por suas qualificações profissionais: engenheiros, arquitetos, médicos, empreiteiros e outros profissionais liberais conseguiram facilidades para conseguir lotes, enquanto os trabalhadores da construção civil se amontoaram nas ocupações irregulares. Muitos foram também para as colônias agrícolas, que deveriam abastecer a cidade de produtos hortifrutigranjeiros.

Mas, enquanto na cidade de São Paulo os japoneses se concentraram no bairro Liberdade e em Curitiba os poloneses se organizaram em Orleans, em Belo Horizonte não vimos a consolidação de guetos nacionais. Tivemos, no entanto, uma profusão de regiões ligadas à classe social e atividade profissional, como as vilas e favelas de operários e trabalhadores urbanos, os bairros de funcionários públicos, de executivos das grandes empresas que chegavam e etc. A Nova Capital foi planejada por uma elite financeira e intelectual que se imaginava cosmopolita e a cidade em construção refletia isso, diluindo as diferenças de estrangeiros e brasileiros a fim de consolidar uma cidade que reforçasse outras diferenças: de classe.
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publicado originalmente em 27 de novembro de 2012 no http://www.bhaz.com.br

Belo Horizonte: Riachos e Favelas

Em sua Memória Histórica e Descritiva de Belo Horizonte, o historiador Abílio Barreto descreve assim a Estação de Minas, onde hoje fica o complexo da Praça da Estação, e onde surgiu a primeira favela da cidade, pouco acima da rua Sapucaí:

“A Estação de Minas era um provisório barracão de tábuas coberto de zinco, plantado no meio da esplanada que estava sendo preparada. Atrás dela, pelo alto da colina, acima da projetada Rua Sapucaí, ia-se adensando uma povoação de cafuas e barracões de zinco, a que o povo denominava Favela ou Alto da Estação ou Morro da Estação. Denominava-se Favela por ser muito semelhante ao morro de igual nome existente no Rio de Janeiro.”

Logo em sua principal porta de entrada a cidade explicitava suas contradições. A nova capital havia sido inaugurada ainda incompleta, as obras por todas as partes ainda precisavam de trabalhadores, mas a administração da cidade continuava a impedir que os trabalhadores conseguissem a propriedade de terrenos dentro da zona urbana.

Dentro dos limites da Avenida do Contorno o preço dos lotes era propositalmente elevado, e as diversas exigências feitas aos possíveis compradores, inclusive quanto à forma de construção da casa, impediam o acesso a migrantes e imigrantes recém-chegados para trabalhar na construção da cidade. A nova capital nascia sob o signo da especulação imobiliária.

Muitos trabalhadores passaram a dormir nos canteiros de obras, outros se organizaram em ocupações. Mesmo na zona suburbana os trabalhadores tinham dificuldades de conseguir a propriedade dos lotes. A solução era (e ainda é) ir para cada vez mais longe, onde não havia fiscalização ou repressão da cavalaria. Aos que se recusavam a passar horas no trajeto diário de casa ao trabalho restavam (e ainda restam) as favelas. Além do Morro da Estação, havia ainda a Favela do Leitão, construída às margens do córrego hoje canalizado sob as avenidas Prudente de Morais e São Paulo, e a Favela do Barroca.

A partir de 1900, a administração municipal começou a ceder às pressões populares e passou a conceder lotes na região do bairro Barro Preto aos operários. Em 1902, o Alto da Estação foi completamente desalojado e pelo menos 300 casas foram destruídas para dar lugar à construção do que veio a ser o bairro Floresta. A questão da habitação popular só começou a ser levada realmente a sério em 1918, três décadas após a inauguração da cidade e após uma série de greves que assustaram as elites locais, quando aprovaram a construção de vilas operárias dentro da cidade, escolhendo o mesmo Barro Preto para a primeira iniciativa. Pouco depois, por volta de 1925, foi a vez da Favela do Leitão, desalojada para garantir a construção do Lourdes e a canalização do córrego.

As ocupações irregulares se deram, principalmente, seguindo os córregos da região, forma prática de garantir o acesso à água, já que não poderiam depender dos serviços públicos. Além do córrego do Leitão e do Barroca, muitos ocuparam as margens do ribeirão Arrudas em direção a Sabará e a zona leste da cidade. Estes trabalhadores ribeirinhos, construtores de fato de Belo Horizonte, foram os principais alvos da especulação imobiliária e da política de repressão às moradias irregulares.

Nas margens dos riachos, as ocupações irregulares criavam seus lugares comuns, fontes de água, local de lavar as roupas, de jogar bola, de se encontrar. A canalização em muitos casos serviu como uma ferramenta do desalojo, expulsando famílias pobres de suas casas ao mesmo tempo em que jogavam pelo cano os riachos e seus espaços de socialidade. A canalização dos córregos se transformou em uma arma de gentrificação a serviço da especulação imobiliária. É a cidade desmemória, que apaga os rastros de seu passado, cidade que faz de seu território uma máquina planejada contra seus habitantes. Uma cidade que só pode sê-lo para alguns de seus habitantes.

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publicado originalmente em 21 de novembro de 2012 no http://www.bhaz.com.br

Esta cidade não é para você

Os membros da Comissão Construtora da Nova Capital (CCNC) envolvidos que estavam nas querelas intelectuais do final do século XIX, em meio ao sanitarismo e a um pensamento que entendia o meio ambiente como preponderante na formação dos indivíduos, esperavam poder criar um novo homem a partir de um ambiente meticulosamente planejado.  No entanto, embora a zona urbana tenha sido pensada para um tipo ideal de elite com hábitos cosmopolitas, ela precisou de um grande contingente de trabalhadores para ser construída.

Entre 1894, quando a  CCNC começou seus trabalhos, e 1896, um ano antes de ser inaugurada a Cidade de Minas, o pequeno arraial de Belo Horizonte já havia dobrado de tamanho. A oferta de emprego na construção civil e no comércio, além das promessas de novas oportunidades, atraíam gente de todos os tipos, que passaram a se amontoar em cafuas e barracos nos arredores da zona urbana, já que não conseguiam propriedades dentro dos limites da Contorno.

Ao contrário do que costumam afirmar por aí, a Avenida do Contorno não foi planejada para conter toda a Nova Capital dentro de seus limites. A cidade fora planejada por Aarão Reis e sua equipe com três grandes áreas: urbana, suburbana e rural – e a Avenida do Contorno devia separar a zona urbana de um cinturão verde que a circundaria. Um cinturão que delimitava, acima de tudo, uma diferença de classe entre os que deveriam viver dentro ou fora.

Mas a vida em sociedade, para a nossa sorte, não é uma ciência exata. Em uma cidade detalhadamente planejada para um “novo homem”, os velhos homens trataram de resistir cotidianamente em seu direito de também existir na capital. Como resposta, uma série de medidas passaram a ser tomadas pelos prefeitos para disciplinar os usos da nova cidade e impedir sua apropriação.

Um exemplo foi o decreto número 10, de 24 de junho de 1925, do prefeito Flavio Fernandes dos Santos, que estabeleceu um regulamento que poderia ser chamado de “anti-farofa” para os usos dos jardins, praças e do parque municipal. O decreto proibia seu uso a pessoas ébrias, alienadas, descalças, indigentes e das que não estivessem  decentemente trajadas, e bem assim das que levarem consigo cães e outros  animais em liberdade, e volumes excedentes de 30 centímetros de largura por  40 centímetros de comprimento; veículos, exceção dos automóveis e velocípede no parque municipal até as 18 horas da tarde; Vendedores ambulantes, com os artigos de seu comércio.

Era a continuação do desalojo. Um desalojo branco, suave e cordial, mas ainda assim um desalojo. O decreto do Prefeito era claro em seu recado: esta cidade não é para vocês. A delimitação do tamanho dos volumes, a restrição ao tipo de veículos, o impedimento aos vendedores autônomos, a menção à decência dos trajes, tudo se referia a práticas das classes baixas, explicitando o caráter classista das proibições.

Não foi o único decreto, claro. De certa forma, este tipo de legislação higienista sempre volta a Belo Horizonte, seja limitando os espaços públicos ou perseguindo os que se encontram nas margens, os vendedores ambulantes, artesãos, profissionais do sexo e etc. Não deixa de ser sintomático, no entanto, que boa parte da oposição ao atual prefeito tenha sido criada justamente como crítica a uma renovação deste tipo de legislação, tão típica da cidade.

E é interessante notar que quando Marcio Lacerda tornou público o decreto número 13.798, de 09 de Dezembro de 2009, proibindo ”a realização de eventos de qualquer natureza na Praça da Estação”, foi justamente indecentemente trajada, ébria, descalça e com volumes maiores que 30cm que a população resolveu se manifestar. Será um prelúdio de algo maior? Resta esperar e, principalmente, batalhar para que finalmente consigamos reivindicar uma cidade que não seja planejada contra a população, mas por ela.

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publicado originalmente em 13 de novembro de 2012 no http://www.bhaz.com.br

Os atingidos por Belo Horizonte

Quando a Comissão Construtora da Nova Capital (CCNC) iniciou seus trabalhos em 1894, o arraial onde as obras começariam tinha cerca de 3 mil habitantes. Já fora maior, chegando a quase 8 mil habitantes 30 anos antes, mas o declínio econômico da região do período lhe fora implacável. A economia do arraial, antes ligada ao comércio de gado, girava então ao redor da lavoura e de pequenas indústrias.

Já havia no distrito de Venda Nova o estabelecimento de fiação e tecelagem desde 1838, a fundição de ferro e bronze desde 1845, uma companhia inglesa de mineração e ouro no Taquaril desde 1865, e fábricas de manufatura de ferro e de vela de sebos desde 1885. Existia até mesmo uma cervejaria, a Carlo Fornaciari & Filhos – Cervejaria Rhenania. Era, afinal, uma cidade, com seu comércio, suas cadeiras colocadas na varanda, seus eventos festivos, seu cotidiano rural, seu belo horizonte.

A Comissão tinha consciência de que sua missão ali era inaugurar um novo espaço para um novo tempo, uma capital que simbolizasse a República que acabava de nascer. O passado, a menção a “el Rei”, a vivência da população nativa, a história do lugar, as localidades e até mesmo o traçado das ruas, tudo devia desaparecer no rolo compressor que os positivistas chamavam de progresso. Ou melhor, tudo não.

A CCNC chegou a criar o Gabinete Fotográfico, onde manteve um registro do panorama do arraial que desaparecia. As fotos trataram principalmente de paisagens, ruas e casarões. As figuras humanas, os moradores, com suas histórias marcadas na pele, estes raramente aparecem, e quando o fazem é como parte da paisagem. Houve portanto a preocupação em salvar a paisagem que desaparecia e que tanto havia chamado a atenção dos membros da CCNC.

Já os curralenses, verdadeiros construtores daquela paisagem, receberam o desdém da CCNC. O arquiteto Alfredo Camarate, por exemplo, afirmava sobre sua hospedagem: “para que se veja como aqui se faz errada ideia do que são as exigência da higiene e do moderno ‘comfortable’, basta dizer que são raríssimos os quartos de cama que tenha, por assoalho, outra cousa que não seja a vermelha terra da localidade, molhada e batida por processos absolutamente primitivos”. Sobre a comida local, dizia “ao almoço temos: feijão, arroz, carne-de-vento, e às vezes, fresca, batatinhas fritas e café! Ao jantar, em compensação, temos: feijão, arroz, carne-de-vento, e às vezes, fresca, batatinhas fritas e café!”.

Os nativos do arraial, seus costumes, suas vestimentas e sua comida foram motivo de chacota e desdém da Comissão e, depois, dos funcionários públicos que chegavam de Ouro Preto e dos novos moradores. Suas práticas eram consideradas como um sinal do atraso e sua participação na construção do arraial, ou mesmo como trabalhadores das obras da Nova Capital, foram menosprezadas. Foram principalmente os maiores proprietários que receberam indenizações razoáveis sobre seus terrenos expropriados para a construção da Nova Capital. A maior parte dos habitantes, a arraia miúda, não recebeu o suficiente para poder continuar vivendo no perímetro urbano da cidade que substituía seu arraial.

A Nova Capital foi, enfim, mais uma grande obra feita em nome do progresso e à revelia dos habitantes do local. Ao tratar a população tradicional com desalojo e desprezo em nome do progresso, Belo Horizonte acabou por se tornar um símbolo da República que realmente temos. O desalojo em nome do progresso pode ser visto como o grande leitmotiv de Belo Horizonte, refrão do conservadorismo local, repetido como jingle até que nossos ouvidos se acostumassem ao ritmo. Nas próximas colunas vou tratar um pouco dos diversos processos de desalojos pelos quais passou e passa nossa cidade.

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publicado originalmente em 31 de outubro no http://www.bhaz.com.br

Diminuir o salário dos vereadores é a melhor saída para moralizar os gastos públicos?

De tempos em tempos volta à pauta do noticiário os super salários do nossos representantes políticos. Em dezembro passado, Belo Horizonte se viu em meio a uma mobilização sem precedentes que combateu à previsão de aumento de 60% no pagamento dos vereadores da cidade. Articulados em torno do movimento Ocupe a Câmara, os manifestantes conseguiram impedir o reajuste, mantendo até 2016 o valor do salário dos integrantes da Casa.

Neste ano, o período eleitoral mal havia chegado ao fim quando o empresário Carlos Amastha (PP), prefeito eleito de Palmas, Tocantins, anunciou que doaria todo o seu salário de R$ 19 mil a “entidades sociais” (sic). Foi o caso também da professora aposentada da Universidade Federal do Rio Grande do Norte Eleika Bezerra (PSDC), vereadora eleita de Natal, que também garantiu que vai doar seu pagamento a instituições filantrópicas.

O assunto voltou ainda ao noticiário com a PEC 35/2012, de autoria do senador goiano Cyro Miranda (PSDB). Com o projeto o senador propõe acabar com o pagamento a vereadores em cidades com menos de 50 mil habitantes, além de estabelecer um teto salarial de 5% da arrecadação do município.  Se aprovada, a proposta vai acabar com o pagamento a vereadores em 89% dos municípios brasileiros. O senador catarinense Casildo Maldaner (PMDB) vai além, defendendo o estabelecimento de limite salarial para todos os cargos públicos, mas é contra o fim do pagamento a vereadores.

Todo cuidado com o erário público é bem vindo, mas o protagonismo dado à questão salarial dos representantes tem também seus engodos. Nem todos os candidatos a prefeito são como Carlos Amastha, empresários com um patrimônio declarado de cerca de R$18 milhões, ou aposentados do serviço público como a professora Eleika Bezerra. E um projeto como o  do tucano Cyro Miranda pode tornar inviável a candidatura de lideranças que não disponham dos recursos para trabalhar enquanto ocupam com qualidade uma cadeira na Câmara de Vereadores de seus municípios. O risco seria ampliar ainda mais o caráter oligárquico da política nacional, especialmente nos pequenos municípios do país.

É claro que os super salários devem ser questionados, o que não se pode deixar é que isso nos faça ignorar outras questões. Os participantes do movimento Ocupe Câmara em Belo Horizonte souberam lidar muito bem com isso, ampliando seus debates e iniciando uma campanha pelo Voto Aberto, igualmente bem sucedida.

Se a intenção é moralizar os gastos públicos, mais útil seria aumentar as ferramentas de controle e vigilância das licitações, utilizadas cotidianamente para pagar dívidas de campanha de políticos eleitos. Ou melhor: uma Reforma Política que estabeleça o financiamento público de campanha.

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publicado originalmente em 16 de outubro de 2012 no http://www.bhaz.com.br

e você não está mais no mesmo lugar

as vezes eu olho pro lado e fico feliz só de estar no solimões. só de estar em outro lugar, só de estar longe, de ser em outra parte outra possibilidade de ser. de estar longe de um eu. ser depende do contexto, depende do entorno, depende da vizinhança. depende dos hábitos, das conversas, dos parceiros de buteco, das possibilidades, do horizonte de expectativas.

francis fukuyama feelings
francis fukuyama feelings

eu nasci nos anos 80, mas adolesci nos anos 90, quando todos declaravam o fim da história. mesmo com tudo para afirmar o oposto. depois de um século de guerra entre capitalismo de estado e capitalismo de mercado, uma guerra (nada fria) principalmente de invasão e ocupação de nossos horizontes de expectativas, decretavam o fim, sem sequer nos consultar. eu cresci no fim. as possibilidades, diziam, haviam se esgotado. ao vencedor, as batatas (neste caso fritas e acompanhadas de sanduíche e refrigerante). sem possibilidades, não havia mais espaço para a imaginação, para a criação, havia uma única via (chamada pelos “moderados” de terceira). foi a década da realpolitik, da efetividade, da técnica. ah!, os técnicos!

numa antiguidade sonhada grega pelo ocidente (que também se sonha ocidental) uma jovem aspirava os ares que saíam das rochas e, inspirada pelos deuses, tecia complexos enigmas sobre o futuro. aos pobres hércules de então restava lidar com aqueles destinos traçados, aceitar os trabalhos, limpar os estábulos. nos anos 90 em que adolesci, a televisão nos mostrava yuppies engravatados que aspiravam pó nos banheiros e nos diziam, em complexa linguagem técnica, como as coisas iam ser. ninguém entendia, mas era tudo técnico, científico. chega de política na economia!, bradavam, basta de ideologias! e se diziam acima daquilo tudo, apenas homens com calculadoras. estes técnicos-pytonisas, virgens engravatados aspirando estranhos humores, inspirados por figuras cinzentas nos bastidores, foram as figuras mais emblemáticas dos anos 90. a nós outros restou limpar os estábulos. e como limpamos!

me lembro que já no final dos anos 90, estava em uma passeata contra o aumento das passagens em bh (não me lembro bem, mas acho que chegava então a assombrosos 65 centavos) e um senhor  olhou pra mim e disse: o comunismo acabou! fiquei pasmo. o que diabos queria dizer aquilo? o que deveria responder? e o que tinha eu, ou meus 4 ônibus diários, a ver com gorbachev?

a queda do comunismo de moscou, diziam, era a prova cabal de que o capitalismo novaiorquino era a única possibilidade. como se tivéssemos somente estas duas opções, como se os impérios fossem a única possibilidade de existir, como se o mundo não fosse maior, como se as possibilidades de organização social não fossem infinitas, como se algum técnico pudesse usar uma calculadora científica para definir, em análise combinatória, tudo o que poderíamos ser. coisa de doido. o primeiro e o segundo mundo foram, no século xx, as viseiras que usaram para nos impedir de olhar para os lados, de nos enxergar.

o fim da história, o fim das possibilidades, a vitória que se apresentava inequívoca de um projeto, era também o fim dos sujeitos. sem ter como agir, sem ter como influenciar os destinos de um mundo que se dizia já sem futuro, deixávamos de ser sujeitos da história para nos tornar objetos de um projeto.

um dia alguém há de estudar este tipo de milenarismo maluco que acometeu o ocidente no final do século xx: o fim do mundo declarado por axioma científico, por análise combinatória sociológica.

e quando parecia que não podiam inventar nada mais, declararam também o fim do espaço. em pleno final do século xx, o neoliberalismo retirava o que ainda havia de cosmopolitismo no liberalismo para pregar uma nova espécie de nacionalismo: a jequice universal. era a aldeia global, diziam.

pra quem ainda prestava atenção tudo aquilo parecia uma loucura, uma leitura on acids de darcy ribeiro: estaríamos todos fadados a ser civilizados, a entrarmos para a sociedade envolvente. e assim seríamos todos, enfim, ocidentais. 


imaginavam que se os chineses comessem no macdonalds, se os árabes vestissem adidas, que se indianos usassem talheres e se os indígenas dirigissem suvs, seriam então globalizados, seriam então ocidentais. não é só que narciso acha feio o que não espelho, é que ele sequer o vê. era a redução absoluta do outro a um mínimo denominador comum de si. restariam, claro, as versões em fastfood, todo um mundo in box, pedidos pelo número e acompanhados do seu refrigerante favorito desta ou daquela company.

mas a geografia é mais difícil de ser domada que a história, é mais óbvia. há sempre os coyotes para nos atravessar pelo deserto, há sempre a trilha por fora das cercas, há sempre a migração. há sempre o movimento.

aos narcisos, encantados que estavam com a própria ereção, só havia similitude. não viam que na repetição também há diferenciação. mesmo nos espelhos, sempre a diferenciação, a criação de diferenças, de sujeitos que se recusam à sujeição a qualquer analista. não era uma questão de contrários, mas de multiplicidades, de infinitas possibilidades. como um caleidoscópio que reage a cada toque, que se modifica, inclui o novo no seu.

a tv chamava de “antiglobalização” os que protestavam nas portas dos encontros do g8, da omc e do bid, o que não deixava de ser irônico já que se organizavam globalmente e tinham como um dos motes a globalização da esperança. é que a globalização nunca foi uma questão de livre comércio – embora tenham feito de tudo para dirigi-la, controlá-la – a globalização é  – e não “foi”, já que ainda é – uma questão de antropofagia. “só me interessa o que não é meu!”. mastigar, deglutir, ingerir, digerir: conhecer, absorver, adaptar, criar. oswald de andrade um, yuppies zero. é encontro, não controle.

mas, como diria a presidenta, tergiverso. onde estava mesmo?

coraci (por mariana oliveira!)
coraci (por mariana oliveira!)

ah, é! longe de mim, eu estava/era (estou/sou?) longe de um eu. se mover nas paisagens é entrar em contato com novos horizontes, é realizar novas expectativas. é perceber que um outro mundo é possível não porque alguém decidiu colocar isto como palavra de ordem de uma feira de curiosidades políticas, mas porque outros mundos estão sendo possíveis agora, ali e acolá, por todas as partes. infinitos mundos não só possíveis como realizados dentro deste mundo, como numa ficção científica em papel barato (ou na tv aberta). se mover é entrar em contato com as formas infinitas de organização social. casas flutuantes na amazônia e arranha-céus no ipiranga, hipnóticas cidades submersas de encantes e imaginários guerrilheiros em sierra maestra. ou cobra-grande e derivativos (que todos insistem serem falsificações mas que os locais insistem que existe e abala estruturas).

se mover é reivindicar o espaço. e há sempre o movimento, nem que seja o movimento dos astros, o tempo em eterno movimento, refutando cada axioma, confundindo cada hipótese. eterno desfazer, criar e destruir, sempre no infinitivo, sempre o verbo (e não só no princípio, como reza o livro), garantindo que sempre existirão possibilidades, sempre ação (para os que decidirem agir, claro), nos lembrando que sempre existirão novos horizontes a alcançar, a vislumbrar. tempo e espaço, afinal são uma mesma dimensão.

[/fim]

ps: este texto contou com a ajuda inestimável de amig@s que perceberam que eu tenho desvio de atenção e um problema gigantesco para colocar vírgulas nos textos já que estou acostumado mesmo é a falar alto e porque sem um copo de cerveja na mão e não sei a hora de respirar, entende? [respira] meus agradecimentos!

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escrito inicialmente em maio de 2011 na RDS Mamirauá (Amazonas), repensado e reescrito em fevereiro de 2012 na Isla Margarita (Venezuela). Publicado originalmente em 23 de fevereiro no extinto  http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com

o buraco é láá em baixo, colega…

(terceiro gole)

não, não é o melhor dos mundos, mas os problemas são outros. e os problemas do sistema de ensino do interior do amazonas não são suas diferenças, mas justamente suas semelhanças com o resto do país. e não adianta bolar soluções que custem vinte vezes o orçamento, já que os podres poderes não parecem querer taxar a cocaína que desce o rio ou acabar com a corrupção dos coronéis. me proponho aqui a citar um par de ideas, não necessariamente simples, nem necessariamente novas, mas que devem caber no orçamento oficial e que já seriam de grande ajuda.

.material didático

não sei quem foi o burocrata tapado, e minha internet tefeense me impossibilita de buscar, que um dia decidiu que a maior parte dos gastos das escolas deveria ser em investimentos “palpáveis”. eu não sei o que o dadá-maravilha dos carimbos no mec queria com isto, mas sei que ajudou o brasil a criar um dos maiores mercados de livro didático e a diminuir consideravelmente os gastos em investimento nos professores, “não palpáveis”. as comunidades que conheci, no entanto, não possuíam este problema: em maraã os livros mais novos eram de 2001, em alvarães sequer existem.

quem dera o maior problema do material fosse sua idade. este material é o mesmo utilizado nas grandes cidades, homogeneizado de norte a sul. e daí? bom daí que se reportam a uma realidade outra. os exemplos do livro de matemática são com maçãs e morangos, os textos falam de números de apartamentos, ônibus, telefones e ruas. quase arranquei algumas páginas dos livros de história antes de entregá-los aos estudantes: temia que os exemplos de índios dos livros ofendesse alguém. praticamente todos possuíam parentes em aldeias próximas, e nenhum deles se parecia com aquele curupira branquelo e ruivo que ilustrava o livro didático com aquela pegada freyreana das “três raças”. o livro de ciências começava pedindo ao professor para ligar o aparelho de som com “sons da natureza”, para relaxar os estudantes e os distanciar da vida agitada dos “sons da cidade”. alguém chama o arnaldo césar coelho pra mim, deve ter alguma regra clara contra isto.

o material de alfabetização chegava a ser cruel. uma criança de uma cidade grande está em contato com letras vinte e quatro horas por dia. elas brilham na tv, andam nos ônibus, se multiplicam nos jornais, ilustram nas revistas, crescem nos outdoors e até abraçam nas roupas. todos as comidas, utensílios e produtos da casa estão cheio de letrinhas, marcas, modos de usar e etc. em uma comunidade ribeirinha é provável que a criança só veja letras sazonalmente, na escola.

é impraticável utilizar os mesmos livros. o material didático precisa ser contextualizado, precisa ser pensado para as especificidades locais e, mais que tudo, precisa ser debatido e contar com a participação direta de professores e comunitários. estou certo de que com a verba não gasta em novos materiais as prefeituras podem produzir materiais próprios, de preferência com parcerias com as universidades federais e estaduais. e seria um “investimento palpável”.

.capacitação

os professores precisam morar nas comunidades. isto é uma questão de logística mas também serve como garantia de um contato com a dinâmica local, para o processo escolar ser interiorizado, deixar de ser algo injetado na comunidade, ganhar autonomia e passar a ser produzido ali. é tambem um fator preponderante para os comunitários. nisto as semed estão certíssimas. mas é preciso que a licenciatura deixe de ser um trabalho temporário, precarizado, um bico.

atualmente a prefeitura de maraã demite os professores em dezembro e contrata em fevereiro, o que faz com a maior parte dos professores mantenha outro emprego temporário, principalmente mototaxi. sem estabilidade, sujeitos às mudanças de humores das eleições, poucos se vêem como professores, e praticamente não há investimento na capacitação. concurso público? nem pensar. em alvarães sequer assinam carteira, é na base da “folha de pagamento”. bom, eu sei que exigir estabilidade e concurso público contraria o que eu havia dito sobre não exigir demais do orçamento municipal, mas pera lá, este já devia ser um ponto pacífico há uns oitenta anos!

eu disse que o multisseriado e a transdisciplinaridade involuntárias e obrigatórias daqui abrem diversas possibilidades interessantes, mas para que elas se concretizem é preciso que sejam pensadas e trabalhadas com tempo. não adianta avisar o professor para ir para esta ou aquela comunidade com três dias de antecedência, e trocar todo o efetivo das comunidades de ano pra ano.

.currículo

bom, agora sim temos um problema, uma destas coisas absurdas que deveriam chocar a todos… mas que ninguém liga. por que diabos eu devo ensinar unificação alemã? bom, é um tema instigante pra mim, claro, mas não é este o ponto, é?

ivan illich, no sociedade desescolarizada, tem um uma sacada genial. ele pergunta, qual a primeira coisa que se aprende na escola? não é soma, não são sílabas, não é ciclo da água… o que é? a primeira coisa que se aprende na escola é a sentar e calar a boca. mas o mais cruel, o mais vil, é o segundo aprendizado da escola. a segunda coisa que se aprende é que o que você quer aprender não é tão importante quanto o que um burocrata distante disse que você deve aprender. neste ponto o aprendizado já está completamente castrado, já que seu principal motor, a vontade de aprender isto ou aquilo, foi desligado. no caso específico destas comunidades esta sensação é ainda pior, e a anomia provocada pela escola ainda mais gritante, já que é somente dentro da escola, aquela construção diferente na comunidade, única de alvenaria, quente e de janelas pequenas, que aquele conhecimento faz sentido.

mas esqueçam dos parâmetros curriculares nacionais e perguntem aos estudantes o que eles querem aprender. na comunidade onde eu estava, por exemplo, era óbvio que havia um grande interesse em barcos e seus motores, assunto cotidiano. com algumas semanas de preparação seria possível organizar um módulo em que fosse possível agenciar conhecimentos de matemática, química, física, geografia e até história estudando os barcos da comunidade, e com interesse garantido dos estudantes. tive uma boa experiência na eja fechando o livro didático sobre vargas e abrindo o paradidático do carlos fausto e o senhores dos rios. as estudantes adoraram ouvir as descrições dos exploradores, perceber as semelhanças das formas de ocupação daquela mesma várzea quinhentos anos antes.

mas os currículos vem de brasília, são filtrados pelos materiais didáticos disponíveis e obedecidos pelos estudantes, quando deveriam partir das vontades dos estudantes, ser catalizados pelas habilidades dos professores e obedecidos pelos burocratas.

olho pro meu copo. está vazio. chega de café por hoje.

~~x~~
escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente em 12 de abril no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas

o buraco é lááá em baixo, colega…

(segundo gole)

muita gente se assustou com a idéia do multisseriado, mas para mim é uma solução excelente. não existe, de fato, um bom motivo para agrupar os estudantes de acordo com a data de nascimento, não é como se eles fossem produtos, organizados por lote e data de fabricação. há diversas outras formas mais inteligentes de agrupá-los, de acordo com seus interesses ou dificuldades, por exemplo. ou poderíamos deixar que eles mesmo se organizassem. a escola da ponte, famosa experiência pedagógica libertária portuguesa, salvo engano, trabalha em um regime que poderíamos chamar de mulstisseriado, e várias destas escolas alternativas caras tem experimentos nesta linha. o multisseriado resolve, por exemplo, a tal marginalização promovida pela repetência, visto que os estudantes permanecem na mesma turma, embora sob cuidados diferenciados.

no caso de maraã, e dos demais municípios do interior, isto provavelmente foi determinado mais pelas circunstâncias que por alguma opção político-pedagógica. na comunidade onde eu estava devíamos ter cerca de setenta estudantes matriculados, uns quarenta e cinco frequentes, entre jardim de infância, primeira a sexta séries e duas turmas de EJA, para três professores. com o multisseriado possuíamos quatro turmas, mas se os dividíssemos em séries específicas passaríamos a nove, algumas com um ou dois estudantes, duplicando a carga horário dos professores e os gastos do município. com meus dois cargos eu possuía trinta e cinco estudantes matriculados, uns vinte e cinco deles presentes. agora considerem que um professor de história do estado de minas gerais, com um cargo de dezoito horas semanais, tenha que lidar com nove turmas de quarenta e cinco estudantes. vamos supor que este professor mineiro seja especialmente ingênuo, o suficiente para se arriscar a avaliações dissertativas, assumindo que na base de marcar x não se anda muito. imaginem que ele peça aos estudantes um pequeno trabalho ou uma redação, nada muito grande, uma página. bom, este professor acaba de ganhar quatrocentas páginas para corrigir no fim de semana. se ele tiver dois cargos, como eu aqui e como quase todos os concursados depois dos cortes do aécio, ele tem o dobro disso. agora me digam, maraã ainda parece tão absurdo?

o fato de um mesmo professor dar todas as matérias tampouco deveria ser assim tão assustador. de primeira à quinta séries a maior parte das escolas sequer contrata especialistas em suas disciplinas, é o império dos pedagogos. disciplinas como estudos sociais, ou ciências, sempre foram muito bem aceitas, e no entanto não eram muito diferentes disto: professores ensinando mais de uma disciplina, em áreas que nem sempre tinham domínio. são experiências que poderiam abrir pontes de transdisiplinaridade, embora, via de regra, não o fizessem. novamente, o modelo de maraã provavelmente decorre da necessidade. História, Ciências, Matemática, Português, Geografia, Educação Física, Língua Extrangeira, temos sete matérias, nove se trocássemos Ciências por Biologia, Física e Química para as séries avançadas, dez se incluíssemos Artes, sempre esquecida. considerando que no parágrafo anterior havíamos duplicado os custos com professores da escola comunitária dividindo os estudantes em séries específicas, se exigíssemos um professor por disciplina neste parágrafo – e eu espero muito que o ministro esteja lendo isto – chegaríamos a conclusão de que a pequena maraã devia ter seu orçamento com professores multiplicado por algo entre quatorze e vinte vezes.

mas o buraco, pra variar, é ainda mais em baixo. mesmo que maraã tivesse entre quatorze e vinte vezes mais verba para educação, seja acabando com a corrupção dos coronéis, seja taxando toda a ocaína que desce o rio japurá sob as toneladas de brita das balsas, como vocês esperam convencer todos estes professores a se mudar para as comunidades para lecionar sete ou oito horas-aula por semana? a não ser que estejamos falando de uma comunidade de tipos-ideais soviéticos, onde quem torra a farinha também leciona química, onde os caçadores sejam geógrafos graduados, os pescadores biólogos e os que trabalham no roçado discursassem sobre linguística construtivista, a não ser que estejamos falando disto, não há o que falar.

o copo na minha mesa, impaciente com a lenga lenga deste texto longo longo, cheio até o topo com um café que só esfria, posto que eu só escrevo, me interrompe. “então é isto? tá tudo bom do jeito que tá? é o melhor dos mundos, cândido?” eu dou um gole. não, claro que não.

~~x~~
escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente em 11 de abril no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas

o buraco é láááá em baixo, colega…

um texto para meu copo de café
(dividido em três goles)

recebi muitos comentários sobre a descrição que fiz da escola na comunidade onde estive. sobretudo muita gente assustada, impressionada. uma amiga jornalista queria fazer uma matéria sobre o assunto, outra, socióloga, fez com que o post chegasse até o ministro da educação.

[rá! eu que passei boa parte da minha vida escolar esperando que meus textos desaforados chegassem aos ministros da educação, fui conseguir algum sucesso só no mais despreocupado deles!]

a falha é minha, talvez tenha pesado a mão num certo exotismo, compromissado que estava mais em mandar notícias para pessoas queridas que em descrever a situação escolar. o fato é que o que alguns identificaram como problemas no sistema educacional do interior do amazonas, são na verdade soluções bem interessantes. não me entendam mal, há muita coisa a ser denunciada, mas é preciso olhar pro fogo, não pra fumaça.

* * *

considerando as problemáticas de cada caso, algumas das opções de um município como maraã são muito mais inteligentes e criativas que as solucionáticas dos dadá-maravilha que carimbam pela secretaria de educação de minas gerais por exmplo.

imaginem a dificuldade de se organizar escolas em pouco mais de uma centena de comunidades com cerca de dez casas cada (mas podendo variar entre quatro e cem!), onde pouquíssimas pessoas passaram por algum processo de escolarização. tenham em mente que a única forma de se chegar a estas comunidades é pelos rios, horas de distância umas das outras. imaginem ainda que estas comunidades não sejam estáticas, que a migração seja extremamente comum e que o tamanho das comunidades possa variar, ou até mesmo que elas possam se desfazer, ou que uma nova possa surgir em um outro entroncamento de rios. este fluxo permanente, no entanto, não significa que os comunitários estejam prontos a aceitar os desmandos da secretaria de educação (semed), muito pelo contrário, cada mudança precisa ser detidamente conversada e acordada. entre os professores há o caso famoso de uma presidenta de uma comundiade que esperava a secretária de educação de borduna em mãos. exemplo que alguns de nós esperávamos ser seguido pela outra presidenta.

não se pode esquecer do fluxo do rio! nas cheias os estudantes vão pras aulas de canoas, mas em cheias muito grandes, como no ano passado, as aulas precisam se interrompidas. quando as secas são muito fortes, como a última, muitas comunidades ficam isoladas, em algumas os pescadores precisam de gastar mais tempo na pesca, dificultando a presença deles e seus filhos na escola. creio que nas comunidades em terra firme haja algo semelhante com a caça e o roçado. durante alguns períodos do ano em que a comunidade se mobiliza para alguma produção específica, pesca manejada, chocolate ou castanha por exemplo, a presença em sala de aula é mínima. o fluxo do rio também é determinante para o contato com as cidades, e isto inclui a chegada ou partida de professores, víveres e materiais para a escola. sem contar o diesel, fundamental para o motor de luz que, em situações normais, garante escassas três horas de luz diárias.

* * *

faço uma pausa para passar um café.o texto está ficando muito longo, será que alguém ainda está lendo? será que o ministro leu? na verdade importa pouco, escrevo para meu copo de café.

~~x~~
escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente em 10 de abril no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas