Quem disser que sabe o que está acontecendo está mentindo: um relato do megaprotesto de segunda 17/06

Ontem estive na segunda manifestação contra o aumento em Belo Horizonte. Começamos a nos reunir por volta das 13 horas na Praça 7 e já éramos muitos. A manifestação foi enorme e não me lembro de nada parecido nos últimos 20 anos em BH. No trajeto de quase dez quilômetros até a avenida Abrahão Caram os manifestantes eram tantos que os mais de quinhentos metros do viaduto Hansen de Araújo e as passarelas do Complexo da Lagoinha não foram suficientes. Não demorou muito para a multidão fechar as doze pistas da av. Antônio Carlos. Durante todo este caminho vi muita gente apoiando do alto dos prédios, de dentro dos ônibus e carros. Eu e minha companheira fomos inclusive muito bem recebidos pela Dona Maria e Seu Altivo, uma família do bairro Cachoeirinha que gentilmente cedeu o banheiro de sua casa aos manifestantes.<!–more–>

Quando chegamos ao Hospital Belo Horizonte, a Coronel da Polícia Militar afirmou que éramos 50 mil pessoas. No entanto, depois que a PM atacou covardemente os manifestantes, a história mudou. Na versão oficial da PM começou um curioso processo de deflação de manifestantes: passamos a ser 35 mil, 20 mil e logo já falavam em somente 15 mil manifestantes. É que parece que além da covardia da agressão física, eles também se divertem com a covardia burocrática, com a deslegitimação através das mentiras. Havia um acordo de que a manifestação iria até a Igreja da Pampulha se reunir com o protesto dos professores, mas a PM descumpriu o acordo e atacou covardemente os manifestantes em frente à UFMG.

Depois disseram na TV que os manifestantes provocaram, falavam palavrões e empurraram PMs. É inacreditável a facilidade com que se defende a violência institucionalizada neste país, e impressiona que a imprensa sequer questione os dados oficiais da PM, se recusando terminantemente a praticar qualquer jornalismo. Pouco me importa se meia dúzia falou da mãe de um policial violento, isso não é justificativa e não dá o direito a ninguém violar o meu corpo, me bater ou jogar veneno em mim. E foi o que aconteceu. E não só em mim, estamos falando de milhares de pessoas que foram agredidas gratuitamente pela Polícia Militar do governador Anastasia (PSDB).

Eu estava no passeio, atrás de uma árvore, oferecendo antiácido para manifestantes afetados pelo gás venenoso espalhado pela polícia, quando vi um PM se aproximar e mirar alto na minha direção. Protegi o rosto e tomei um tiro de bala de borracha no ombro, simplesmente porque estava ajudando pessoas feridas pela polícia. Não fui o único, muita gente tomou tiro, mas mesmo assim parte da imprensa repetiu a mentira oficial de que não haviam usado balas de borracha. Houve até mesmo um cadeirante que foi covardemente alvejado com balas de borracha.

A polícia jogou muito gás lacrimogêneo e depois ainda usou o helicóptero para espalhar o gás na direção dos manifestantes que fugiam, transformando a paisagem em uma zona de guerra. Há quem repita ainda que estavam errados os manifestantes que reagiam à violência policial. Eu faço minhas as <a href=”http://www.youtube.com/watch?v=RNFFbzitm2A&#8221; target=”&quot;”><span style=”color: #3366ff; text-decoration: underline;”>palavras do estudante membro do Movimento Passe Livre de São Paulo</span></a> em entrevista ao Estadão: depois que a polícia começa a violência, a manifestação vira outra, torna-se revolta contra a violência policial. Não é questão de defender ou deixar de defender os encapuzados que reagiam, é simplesmente notar o óbvio: tentar convencer alguém que acaba de ser agredido gratuitamente a não reagir é desumano. A PM fala da importância do “respeito às autoridades”, o que é ainda uma terceira agressão, quem merece respeito somos todos nós, e autoridade maior aqui é o povo mobilizado nas ruas, oras. O vandalismo maior é aquele feito pelo Estado contra os nossos corpos, e diante deste eu não poderia me importar menos com meia dúzia de vidraças de banco. É uma questão de prioridades mesmo.

Mais tarde, quando tudo parecia bem, os manifestantes estavam sentados na avenida Abraão Caram e os (poucos) jornalistas já haviam ido embora, a Polícia começou uma segunda jornada de repressão. Vieram tropas dos dos lados da avenida Antônio Carlos, da Abraão Caram e de dentro do Jaraguá, deixando os manifestantes sem ter nenhum lugar para onde fugir. A polícia chegou ao absurdo de lançar bombas e balas de borracha nos manifestantes em cima do viaduto, fazendo uma multidão correr e pelo menos duas pessoas caírem do alto de mais de 6 metros. Ninguem morreu, mas isto foi sorte. Inclusive porque quando o corpo estava no asfalto da avenida Antônio Carlos sangrando e alguns manifestantes correram para socorrer, a PM lançou bombas e balas de borracha ao lado do corpo, impedindo a ajuda e envenenando ainda mais o manifestante ferido. Um policial completamente irresponsável foi ainda filmado menosprezando a queda do rapaz.

Se existe uma coisa que aprendemos com estes dois últimos protestos em BH é que o protesto só é violento quando a PM quer. Em Belo Horizonte não houve “confronto”, nem “reação da polícia”. O que houve foi o uso de um aparato brutal de repressão do governo Anastasia (PSDB) contra cidadãos para defender os interesses da <a href=”http://www.facebook.com/photo.php?v=499566510111107&amp;set=vb.100001732885099&amp;type=2&amp;theater&#8221; target=”&quot;”><span style=”color: #3366ff; text-decoration: underline;”>FIFA</span></a>.

Tenho visto muita gente afirmando que a violência contra essas manifestações esporádicas é o dia a dia das periferias e do campo no Brasil. Isto é um fato, mas também esconde uma das funções de qualquer protesto público. Históricamente as manifestações populares sempre tiveram essa função de explicitar no centro de poder a violência cotidiana das periferias. As manifestações costumam ser em lugares centrais porque quando a violência ocorre longe do centro a imprensa não vê, o governo nega e parece que nada aconteceu. Outra função histórica das manifestações populares é educativa, é ali na rua que as pessoas se formam politicamente e podem ver, na prática, os limites da democracia representativa. Por isso não me incomoda nem um pouco que pessoas que nunca foram a manifestações estejam indo, pelo contrário, isso é ótimo! E tenho a certeza de que ontem eles aprenderam bastante sobre a função da Polícia Militar e a quem ela serve e protege.

Durante as quatro horas e meia de manifestação completamente ordeira e pacífica, como costumam ser as coisas quando não interferem as “autoridades”, era possível perceber uma quantidade enorme de cartazes com demandas bem diferentes. Os gritos e cantos também variavam muito, e dependendo do lugar onde você estivesse na marcha provavelmente você teria impressões muito diferentes do que estava acontecendo ali.

Perto das 22 horas eu cheguei em casa, coloquei as roupas cheias de gás lacrimogêneo em uma sacola, limpei as feridas e percebi que eu tinha somente uma certeza: quem disser que sabe o que está acontecendo está mentindo. Havia ali gente de todo tipo.

Um sujeitinho esquisito com cartaz sobre o “livre mercado”, por exemplo, era um dos mais ativos puxando gritos contra partidos de esquerda, até que alguém descobriu que ele era parte do P-Liber, um protopartido de direita ultraliberal, e ele decidiu que era melhor se calar. Algumas pessoas que nunca entraram em um sacolão na vida reclamavam do preço do tomate enquanto em frente à Pedreira Prado Lopes outros manifestantes gritavam “desce Pedreira!”. Havia muita gente com cartazes genéricos contra a corrupção (como se alguém em sã consciência fosse a favor), mas havia também muitos cartazes que colocavam isso em termos práticos: pediam financiamento público de campanha, a revisão dos contratos da Copa e o fim da Lei da Copa.

Essa dimensão difusa deu aos oportunistas uma chance única (um artigo do MPL SP sobre isso <a href=”http://www.cartacapital.com.br/sociedade/nao-podemos-nos-alinhar-aos-datenas-jabores-e-pondes-4545.html&#8221; target=”&quot;”><span style=”color: #3366ff; text-decoration: underline;”>aqui</span></a>). Os jornalões nacionais primeiro pediram, irresponsavelmente, por mais repressão e depois mudaram de ideia, e Arnaldo Jabor, o eterno colunista do Jornal Nacional, chegou a afirmar, provavelmente pela primeira vez em sua vida, que havia errado em sua análise. Sobre o oportunismo, o ex-governador Aécio Neves merece uma atenção especial: mesmo depois de uma década reprimindo violentamente manifestações populares em Minas, ele resolveu tentar tirar uma fatia do protesto.

Algumas coisas, no entanto, começam a se delinear. Todos os protestos que vi pelo Brasil foram chamados inicialmente como mobilização por transporte público de qualidade, contra o aumento da passagem ou por Passe Livre. Essa foi a tônica dos protestos e os gritos que mais ressoavam eram relacionados ao transporte. Em BH sempre que haviam ônibus parados os manifestantes cantavam “ô motorista, ô trocador, me diz aí se seu salário aumentou”, gerando quase sempre simpatia dos trabalhadores do transporte público. O Passe Livre já é uma demanda antiga no Brasil, existem diversos projetos disponíveis e só o que falta é vontade política para realizar.

A recusa à violência policial também é uma constante em todo o país, e o nome Revolta do Vinagre parece que pegou. A desmilitarização da Polícia e o fim das armas químicas e balas de borracha também parecem estar se tornando uma demanda em comum por todo o país.

Por fim, a revisão dos contratos, o fim da abusiva Lei da Copa e a restituição aos atingidos pela Copa também parecem ser demandas comuns. Em várias partes do país os manifestantes foram em direção aos estádios de futebol – aqueles rebatizados de Arena por algum publicitário que nunca jogou futebol – e gritos contra os abusos legitimados pela Copa foram também muito comuns.

A verdade é que uma revolta popular sempre esquiva de rótulos, se volta e revolta para todas as direções. A imprensa e os governos ficam procurando líderes para cooptar ou punir, sem perceber que uma das coisas em jogo é a própria concepção de representação política como única forma disponível de política. Como dizem os revoltosos gregos, o futuro não está escrito, e imagino que os sentidos destes protestos terão que ser disputados e construídos nas ruas, palmo a palmo, grito a grito.

<strong>* Matheus Machado é formado em História, especialista em Gestão Educacional e fake amador (<a href=”https://twitter.com/coalacroata&#8221; target=”&quot;”><span style=”color: #3366ff; text-decoration: underline;”>@coalacroata</span></a>).</strong>

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