O abismo olha para você

Um fenômeno curioso aconteceu nas últimas semanas. Depois que as polêmicas fotos do trote da Faculdade de Direito contendo racismo e apologia ao nazismo foram publicadas na internet, diversos usuários começaram a vazar novas informações a cada dia, em um vasto processo de pesquisa e inteligência coletiva. A força da divulgação veio tanto da insistência dos usuários em repudiar a hipótese da “brincadeira”, quanto da investigação de massas realizada por dezenas de pessoas tanto nos seus locais de trabalho quanto nos seus horários livres.

O resultado foi que a “brincadeira” de Gabriel Spínola foi desmascarada com a descoberta de suas defesas descaradas da segregação racial e sua participação efetiva em um movimento fascista organizado. Da mesma forma foi desmentida a tese maluca defendida por Marcus Cunha, de que o catador de material reciclável Luis Célio Damásio e o skinhead neonazista Donato Peret estavam “brincando” e se aconselhando na foto. As diversas imagens de cunho nazista compartilhadas ou publicadas por Marcus Cunha, Donato Peret e seus amigos não deixou margem de dúvidas para a Polícia Civil, que agiu com rapidez. Depois da prisão, provavelmente se sentindo mais seguro, Luis Célio Damásio prestou queixa contra os rapazes, confirmando a agressão e eliminando qualquer dúvida.

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Eu, pelo menos, não esperava uma ação tão rápida por parte da Polícia. Não porque reitero o lugar comum dos que afirmam que o Brasil é o país da impunidade, acho esse um engano terrível que vem sem usado na mídia para  confundir os debates sobre o sistema penal. Como afirma o deputado Marcelo Freixo, que trabalhou por 15 anos como educador em penitenciárias, “no Brasil se prende muito. Não é o país da impunidade. A impunidade é para alguns setores — da política. Pros pobres, é um dos países mais punitivos do mundo. Quem tá preso é jovem, pobre, negro e morador de periferia. Só esses que cometem crime ou só os crimes cometidos por esses é que geram privação de liberdade?”. Minha grata surpresa foi ver a máquina repressiva do Estado investigando crimes praticados por jovens brancos moradores de bairros nobres da cidade, de famílias tradicionais.

Foi também a primeira vez que vi a ameaça das milícias terroristas de extrema-direita ser tratada como deveria: caso de polícia (um excelente filme que já indiquei antes para quem quiser entender processo do sequestro do Skinhead pelos White Power é o This Is England). Na França dos anos 80 o governo lavou as mãos e deixou estes grupos de ódio crescerem livremente, fortalecendo a cultura de vigilantismo até o ponto em que eles passaram a atacar até mesmo os policiais negros em Paris. A resposta às quadrilhas skinheads neonazistas em Paris acabou por vir na mesma moeda: grupos libertários de negros, punks, descendentes de imigrantes e skinheads não racistas se organizaram em grupos de defesa para prevenir os ataques neonazistas nas ruas (aqui o filme Antifa: Caçadores de Skins). Parece um cenário distante e apocalíptico mas não é: em São Paulo a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) tem mantido pelo menos 25 quadrilhas fascistas e neonazistas sob investigação constante, uma delas acusada de colocar uma bomba caseira que feriu 13 pessoas na Parada Gay em 2009.

Então qual não foi minha surpresa e felicidade ao ver as imagens de Donato PeretJoão Vetter e Marcus Cunha detidos pela polícia e sendo questionados por suas publicações racistas. A felicidade de imaginar que poderia ser o começo de uma investigação que desse cabo destes grupos de ódio (que já alcançam 6.000 simpatizantes em Minas Gerais), no entanto, foi ganhando um gosto amargo. O que já estava incipiente nas caixas de comentários desde as fotos do trote da Faculdade de Direito começou a ganhar uma proporção completamente inesperada. De repente os comentários pretensamente antifascistas foram se tornando cada vez mais parecidos com o que teoricamente combatiam: “tomara que sejam estuprados por um negão!”, “tem que apanhar da polícia”, “tem que matar”, “joguem na masmorra”, “cortem-lhe a cabeça!” (ok, essa última eu não vi de fato, copiei da Rainha de Copas).

Fascismo é uma questão de alteridade, de lidar com as diferenças. Ou melhor, é uma forma de lidar com a alteridade pautada pela autoridade sobre o outro e, portanto, pela uniformização, todo o resto vem daí. É isso que motiva o ódio contra todo e qualquer desvio do padrão homem-branco-hetero-cristão e justifica os ataques a homossexuais, mulheres, negros, imigrantes e etc. Dessa forma o fascismo é um ataque à Humanidade, essa construção maravilhosa que incluiria todos os seres humanos.“Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se tivesse perdido um promontório, ou perdido o solar de um teu amigo, ou o teu próprio. A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes indagar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”, dizia a linda prosa do pastor anglicano e humanista John Donne ainda no século XVII.

Não quero fazer aqui uma crítica moralista dos comentários sobre a prisão da quadrilha, eu entendo e compartilho da raiva de quem se sentiu ultrajado pelas imagens patentes de apologia ao ódio, incentivo a violência racial, segregação, preconceitos e vigilantismo. Instintivamente minha reação ao ver as prisões foi de felicidade, pensei: hoje esses caras não vão bater em ninguém. Mas é preciso ir além do instinto se quisermos construir uma sociedade onde o fascismo seja impensável, é preciso repensar-se a cada momento.

Quando vi as críticas à quadrilha neonazista serem pautadas pelo elogio ao estupro, pelo racismo, homofobia e defesas rasgadas do estado penal, fiquei com dúvidas sobre quem estava, de fato, vencendo a batalha. Se o resultado de uma luta contra o nazismo for uma fascistização da própria crítica, então talvez estejamos fazendo alguma coisa errada. Aplaudi assim a transferência de Donato Peret para a penitenciária Nelson Hungria: não haveria nenhuma vitória em deixá-lo à mercê de ataques. A violência, a mentira, o elogio ao estado penal e o ódio são as armas deles, não as nossas.

Neste sábado, no entanto, algumas pessoas decidiram responder às demonstrações de ódio de uma forma diferente. A partir das 15 horas na Praça Afonso Arinos, em frente a Faculdade de Direito da UFMG, vai acontecer uma celebração festiva da diversidade: o Pagodão Contra o Nazismo. E para se contrapor às marchas militares fascistas já surgiu até uma marchinha ironizando a quadrilha. A proposta do tal Pagodão me parece extremamente bem vinda, uma afirmação da diversidade e da solidariedade e uma retomada da cidade para dizer em alto e bom som: BH não é fascista!

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Foto: Reprodução/Facebook

** Matheus Machado é formado em História, especialista em Gestão Educacional e Fake amador (@coalacroata). Escreve no Bhaz às terças-feiras.

Publicado originalmente em 19 de abril de 2013 em http://www.bhaz.com.br/o-abismo-olha-para-voce/ ‎

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