O que o fascismo já fez no Brasil: mentiras e golpes de estado

Esta semana começou com a prisão de Antônio Donato Baudson Peret (leia sobre o histórico aqui e aqui) e de outros dois neonazistas investigados por formação de quadrilha, agressões, racismo e apologia ao nazismo e ao crime. O vídeo de Donato Peret sendo preso em Americana/SP rapidamente se espalhou pela internet. Ao ser preso, ele estava com duas facas, uma delas digna do Rambo, com pelo menos 30 centímetros de lâmina, e um soco inglês.

Muito se tem dito sobre o potencial ofensivo de um grupo pequeno como esse. Entre o material apreendido estava uma camisa do movimento fascista Patria Nostra, o mesmo do estudante da Faculdade de Direito. Ao contrário do que parece para o telespectador desatento, grupos fascistas tem tido uma participação razoável em diversos momentos chave da recente história brasileira.

Em 1937, quando Getúlio Vargas procurava um Incêndio no Reichstag pra chamar de seu, foi um documento anticomunista escrito dentro de um grupo fascista, a Ação Integralista Brasileira, que o salvou. O documento ficou conhecido como Plano Cohen e foi apresentado à sociedade como um plano dos comunistas para dar um golpe, mesmo tendo sido escrito pelo integralista e então capitão do exército Olímpio Mourão Filho.

Vinte e sete anos depois foi o mesmo Olímpio Mourão, agora general, que levou suas tropas de Juiz de Fora ao Rio de Janeiro para dar o golpe em João Goulart, novamente sob uma falsa ameaça de golpe comunista. O general Olímpio Mourão Filho chegou a afirmar que em matéria de política era uma “vaca fardada”, e foi criticado até mesmo por lideranças civis do golpe por ter quase provocado um banho de sangue, mas isso não impediu que chegasse até o Superior Tribunal Militar durante a ditadura.

Nos anos 80 um grupo de militares de linha dura e grupos fascistas se organizaram em uma série de atentados a bombas para impedir a abertura democrática. Até mesmo bancas de jornal que tentavam divulgar jornais e revistas de esquerda foram aterrorizadas. Um dos nomes envolvidos em atentados a bomba, segundo uma matéria da revista Veja de 1987, foi o capitão Jair Bolsonaro. Atualmente deputado federal, Bolsonaro se tornou a principal voz contra os direitos dos homossexuais, os mesmo que vem sendo agredidos pelos neonazistas em Belo Horizonte, e tem expressado sua delicadeza na Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Bolsonaro também foi procurado pelos fascistas do tal Movimento Pátria Nostra em busca de apoio.

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Deputado Bolsonaro já foi procurado por grupos fascistas que atuam no Brasil
Foto: Reprodução/Agência Brasil

Outro suspeito de envolvimento com bombas nos anos 80 foi Nei Mohn, que também foi presidente de uma juventude nazista nos anos 60. Nei Mohn foi identificado pelo jornalista Tony Chastinet, algumas décadas mais tarde, como a origem do material mentiroso que usaram contra a então candidata Dilma Roussef nas eleições de 2010. Não teria sido a primeira vez, Nei Mohn já foi investigado também pela falsificação de material da Igreja Católica contra religiosos de esquerda.

Em 2009, uma matéria de capa da revista IstoÉ deu visibilidade a uma vasta rede com centenas de nazistas que atua em todo país. Uma disputa interna teria levado ao assassinato do estudante mineiro Bernardo Dayrell e sua namorada Renata Waechte e atraído a atenção da mídia. O plano descortinado pela investigação policial era um complexo projeto de poder, que incluía participar de algumas eleições em partidos conservadores mas também a independência de teritórios nacionais para a criação de um regime abertamente nazista: Neuland.

Em alguns estados, a Polícia Civil tem acompanhado essas redes de divulgação do ódio mais de perto, e o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia, o deputado Durval Ângelo, afirmou que vai cobrar a criação de uma delegacia específica também em Minas.

É importante que fique claro que não estamos falando de grupos de estudo, de pessoas dedicadas a disputar o tal mercado de idéias políticas. São organizações com centenas de membros dedicadas a pregar o ódio racial e o totalitarismo, e cujas participações na esfera pública frequentemente se dão através de agressões, mentiras e boatos, que inclusive já levaram o país por duas vezes a regimes ditatoriais. Vamos ficar atentos.

** Matheus Machado é formado em História, especialista em Gestão Educacional e Fake amador (@coalacroata). 

Publicado originalmente em 16 de abril de 2013 em http://www.bhaz.com.br/o-que-o-fascismo-ja-fez-no-brasil-mentiras-e-golpes-de-estado/

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