Como identificar símbolos neonazistas

No dia 07 de setembro de 2011 dois rapazes estavam sentados na Praça da Liberdade conversando quando Antônio Donato Peret, o Tim, e seu comparsa R.B.C.., então menor de idade, passaram por eles e gritaram “seus gays safados!”. Segundo o Boletim de Ocorrência registrado no mesmo dia Donato teria vestido então um soco-inglês e atacado os dois rapazes sentados com socos e chutes. O B.O. informa ainda que o menor R.B.C., que estava com Donato, teria sacado um canivete e atingido um dos rapazes no ombro, causando um corte de aproximadamente 4 centímetros.

Não foi a única passagem de Antônio Donato Peret pela polícia. Em outubro de 2010 ele e um amigo de Volta Redonda tiveram passagem por porte de arma branca de forma ostensiva na Praça Diogo de Vasconcelos. Em abril de 2011, Donato ainda é citado em outro Boletim de Ocorrência por ter ameaçado por telefone uma vítima de agressão sua. Em outubro de 2012, Donato ainda desfilou orgulhosamente para as câmeras da TV Record ao ser preso com um grupo de 11 neonazistas que haviam espancado skatistas em São Paulo. Quando postou a foto enforcando um morador de rua Donato ainda comentou: “em todas as vezes que fui detido por estar fazendo minha parte como cidadão, mantendo a conduta e o civismo, nunca tremi pros ‘home’, sempre q fui enquadrado pelos COP eu dava risada ou respondia olho no olho, tanto que em SP fui o único que levou spray de pimenta e socos (…)”.

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Em uma matéria do Estado de Minas de ontem o dono de um bar na rua Tomé de Souza frequentado pelo grupo de Donato afirmou que “eles sempre estão querendo bater em alguém e não perdoam nem hippie. O papo deles é só de briga, de luta marcial”. Não vou aqui mencionar as defesas que Donato tem recebido em comentários nas redes sociais e nos portais de notícias, o artigo de ontem do meu amigo Pedro Munhoz já fez isso com maestria. Mas fico muito surpreso ao ver que a primeira reação de muita gente é inventar desculpas para um caso claro de agressão.

É importante que Donato não seja visto como um agressor solitário. Em todos os casos citados ele se encontrava com outras pessoas que se identificavam como parte de um mesmo grupo, os “white skins”. No entanto, quando vi as primeiras denúncias de ataques violentos contra negros e homossexuais promovidos por skinheads neonazistas nas ruas de Belo Horizonte me preocupou ver parte da imprensa tratar a coisa como se fosse uma simples briga de rua, ou confronto de “gangues”. As dezenas de imagens divulgadas pelo próprio Donato em sua página pessoal do facebook deixam poucas dúvidas sobre o caráter neonazista de seu grupo, onde pelo menos 5 pessoas aparecem com frequência fazendo saudações nazistas, se identificando como White Skins e exibindo uma profusão de tatuagens de cunho nazista.

Os ataques mencionados não foram feitos contra “gangues”, mas contra transeuntes que nada faziam além de cuidar das próprias vidas. Se um grupo se organiza para praticar, induzir ou incitar a discriminação e o nazismo, estamos falando de um crime grave, não de uma brincadeira juvenil. Se uma milícia armada com soco-inglês, facas e até mesmo arma de fogo se organiza com a intenção de agredir cidadãos indefesos por sua cor, sexualidade ou forma de se vestir, estamos falando de atos de terrorismo contra cidadãos brasileiros.

Como alguns simbolos, como a suástica invertida do nazismo, são proibidos não só no Brasil mas em diversos outros países, incluindo a Alemanha, os defensores da intolerância criaram uma profusão de códigos para poder exibir sua intolerância sem se expor demais. Em uma das fotos que Antônio Donato Peret publicou em seu facebook ele exibia uma pixação de símbolos de ódio na Biblioteca Pública de Belo Horizonte, em plena Praça da Liberdade. Os símbolos ficaram ali por meses.

Confiando na ignorância da população sobre a simbologia Marcus Cunha, amigo de Donato, teve a audácia de dar uma entrevista ao jornal O Tempo afirmando que o enforcamento era “uma brincadeira”, e que os dois estavam tentando convencer o morador de rua negro a se recuperar “dissemos que ele poderia ir para uma clínica e nós o ajudaríamos”.

A Anti-Defamation League (ADL) mantem uma lista de símbolos de grupos de intolerância, e explica: “símbolos de ódio são mais do que simples símbolos de racismo, (…) esses símbolos são feitos para provocar medo e insegurança”. Ficar atento a estas marcas é um primeiro passo para identificar esses grupos e os territórios onde atuam. Além da suástica nazista, o muro da Biblioteca Pública tinha outros símbolos: um “88”, um “14”, uma Cruz Celta e a palavra “skin”. Vários desses símbolos estão também tatuados em pelo menos dois dos companheiros de Donato, além de outras referências nazistas.

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Segundo a Anti-Defamation League, o “88” significa “Heil Hitler”, sendo o H a oitava letra do alfabeto. Já o “14” é uma menção às “14 palavras”, um mote criado pelo supremacista branco norteamericano David Lane, e significa “we must secure the existence of our people and a future for white children” ou “nós devemos garantir a existência de nosso povo e o futuro para as crianças brancas”. Uma foto de uma variação desta frase pixada em um muro de São Paulo foi publicada por Marcus Cunha com direito a uma frase de Hitler como descrição. Ainda segundo a ADL a Cruz Celta se transformou em um dos principais símbolos de supremacistas brancos, tendo sido muito divulgada pela Klu-Klux-Klan e pelo Stormfront, dois grupos abertamente racistas. Já “skin” é uma referência ao movimento musical skinhead, sequestrado pelo White Power durante os anos 80 (um excelente filme para quem quiser entender esse processo é o This Is England). Vários outros símbolos, seus significados e informações sobre os grupos que os utilizam estão disponíveis no site da ADL (você pode conferir em inglês aqui). Impedir a profusão desses símbolos é impedir que o espaço público seja tomado por milícias do medo.

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Recentemente uma Audiência Pública da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa de Minas Gerais feita para discutir o trote racista da UFMG teve como encaminhamento a proposta de criar em Minas uma  Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância, como já existe em outros estados. Esse tipo de iniciativa é louvável porque pode ajudar a identificar esses grupos de defesa do ódio antes que provoquem muitos danos. Espero que de posse do vasto material divulgado pelo Centro de Mídia Independente  (as três primeiras partes do dossiê estão disponíveis aquiaqui e aqui), pela imprensa em geral e com a ajuda das informações da Anti-Defamation League, algo seja finalmente feito para impedir esse tipo de terrorismo. Se nem mesmo os grupos que se organizam com o único fim de promover a violência e a discriminação forem contidos e punidos, o que dizer da violência e da discriminação ocasional? É hora de dar um basta.

UPDATE: [12/04/2013 15:25] A foto publicada no perfil de Marcus Cunha é referente a um muro de São Paulo, e não de Belo Horizonte como eu havia descrito.  A dica foi do Jorge Conrado de Miranda e agradeço pela correção!

** Matheus Machado é formado em História, especialista em Gestão Educacional e Fake amador (@coalacroata). Escreve no Bhaz às terças-feiras.

Publicado originalmente em 12 de abril de 2013 em http://www.bhaz.com.br/como-identificar-simbolos-neonazistas/

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