O fundo de verdade na ‘brincadeira’ do trote na Faculdade de Direito da UFMG

No último mês, as fotos do trote racista e com apologia ao nazismo na Faculdade de Direito da UFMG rodaram as redes sociais e provocaram reações até mesmo da ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. As denúncias relativas às fotos acabaram por abrir as portas para outras denúncias ganharem a mídia, incluindo a crítica ao conteúdo machista das músicas da Charanga da mesma Faculdade (você pode ver algumas letras aqui). Uma comissão da UFMG foi criada para apurar as denúncias e deve apresentar seus resultados até o próximo dia 19.

Para completar a situação um estudante dessa faculdade deu uma entrevista para a Record na porta da escola afirmando que não havia intenção racista quando “pintaram a caloura de escrava” (sic), que lá eles “tem amigos negros” e que o símbolo da Associação Atlética dos estudantes era um “macacão” (sic), acrescentando depois que se houvesse alguma intenção racista teriam usado o símbolo para isso (duvida? veja o vídeo aqui ou aqui). Alguns dias depois, o estudante ainda escreveu uma nota explicativa em seu perfil no Facebook alegando que Não estamos preparados para discutir o racismo com a seriedade que o tema merece. Considerando que ele é provavelmente dono da pior frase, no pior momento da história dos debates raciais, há que se convir que ele deve estar sendo sincero.

Eu não acho que a Faculdade de Direito seja um lugar especial, a idiotia é uma das coisas mais bem distribuídas do mundo, e gente assim existe em toda parte. No entanto, isso aconteceu ali e eles terão de lidar com isso. E por enquanto a coisa não vai nada bem.

O Centro Acadêmico Afonso Pena (CAAP), dos estudante de Direito da UFMG, soltou uma nota na qual dizia ser contra o racismo, mas também criticava as pessoas que divulgaram as fotos nas redes sociais, como se fosse possível equivaler um abuso à sua denúncia. Considerando que o CAAP já conhecia os abusos, mas que não os havia denunciado, fica a impressão de que a intenção do centro acadêmico era abafar o caso, ao invés de combater abertamente os abusos. Aliás, não fosse o fato das fotos terem vazado nas redes sociais, provavelmente não saberíamos de mais esse abuso. Diga-se de passagem: as fotos foram postadas pelos próprios envolvidos e tiradas em lugares abertos, com direito a pose e sorriso orgulhoso dos veteranos.

Alguns estudantes tem repetido o discurso padrão após casos semelhantes: “foi só uma brincadeira”, “não era a intenção”, “está fora de contexto”. O estudante que citou o “macacão” chegou a culpar quem “sempre enxerga as pessoas como más”, e afirmou que prefere “ver o lado bom das pessoas”.  Como bem lembrou a professora Ana Lúcia Modesto em uma excelente entrevista sobre o tema, o trote em si já “é uma prática arbitrária, historicamente construída, mas que foi naturalizada”. A professora ainda comenta magistralmente o discurso da “brincadeira”:  “Em séculos passados, considerava-se brincadeira durante determinada época do ano promover corridas nas ruas com judeus, deficientes físicos, anões, loucos, o que era uma forma de submetê-los a um vexame público. Para os que estavam assistindo, aquilo era só brincadeira, o que é uma categorização perigosa.

Mas fiquei curioso. Qual era, afinal, o contexto que justifica amarrar um calouro pintado de marrom e fazer a saudação nazista ao seu lado?

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Um dos problemas de procurar coisas é que você acaba encontrando. Uma pesquisa básica sobre o tal contexto do trote me deixou boquiaberto. O perfil nas redes sociais de um dos estudantes, o que estava com um bigode de Hitler pintado, é uma sequência interminável de propagandas abertamente fascistas. O Centro de Mídia Independente publicou esta semana uma seleção do pior, confira aqui. Um dos comentários da publicação afirma ainda que o material teria sido enviado a alguns jornais locais, mas que não havia sido publicado por força da família do rapaz.

Uma das fotos divulgadas é do site PicBadges, uma ferramenta para incluir em avatares de redes sociais os broches digitais das suas causas de interesse. O rapaz usava a ferramenta para defender o partido neo-nazista alemão NPD, a perigosa ATB/C18Brigada Ariana de Terror (C18 é um código para Combat Adolf Hitler), e o Movimento Pátria Nostra, seção de um movimento fascista italiano. Em outra foto, o rapaz exibe um visual skinhead, movimento musical que foi sequestrado pelo White Power nos anos 80.

Em uma quarta imagem, podemos ver uma publicação no Facebook do rapaz defendendo Oswald Mosley, líder do fascismo britânico e amigo de Adolf Hitler, e em seguida elogiando Nigel Farage, liderança conservadora britânica, e Nick Griffin, líder do British National Party, movimento neofascista que apóia, entre outras coisas, a expulsão da Inglaterra dos imigrantes não brancos e seus descendentes.

quinta e a sexta imagem, no entanto, foram as que mais me impressionaram. Se trata de uma defesa de Eugene Ney Terre’ Blanche, um dos maiores nomes em defesa do regime de Apartheid na África do Sul. Terre’Blanche foi o líder da AWB, o Movimento de Resistência Afrikâner, um movimento paramilitar nacionalista e racista cujo símbolo também é uma clara alusão à suástica nazista. Nos comentários, o estudante afirma claramente que apóia a segregação racial, diz que o Holocausto foi uma mentira e defende a “luta pelos direitos dos brancos”. Na sétima imagem, vemos o rapaz inverter uma imagem famosa com esqueletos para afirmar que há sim uma diferença entre gêneros e raças. Na oitava imagem, o estudante da Faculdade Direito ataca a Teoria da Evolução, defende o criacionismo e o cristianismo fundamentalista. Na nona imagem, por fim, encerramos o show de horrores com rastros de homofobia e obscurantismo.

Encerramos? Quem me dera. A cereja do bolo fica por conta do vídeo da reunião internacional do tal Movimento Pátria Nostra (os brasileiros aparecem por volta dos 6 minutos aqui). O que primeiro chama a atenção é: se é um movimento nacionalista, por que prestar contas a um movimento estrangeiro?  No vídeo, um certo Marcelo Botelho, que também é advogado, aparece ao lado do estudante da UFMG contando aos seus companheiros como está estabelecendo contato com ninguém mais ninguém menos que o ex-capitão e atualmente deputado Jair Bolsonaro. Botelho, que é ex-militar, tem também um perfil público com praticamente todos os símbolos nazistas conhecidos, incluindo aí o símbolo da S.S. nazista, a cruz celta e a runa odal nas cores do partido nazista alemão.

Em tempos como esse, onde figuras como Feliciano e Bolsonaro comandam até mesmo a Comissão de Direitos Humanos, não existe espaço para ingenuidade e aqueles que repetem a ladainha do “é brincadeira”, ou “que exagero!”, acabam por proteger figuras que claramente não estavam brincando e, sim, propagando sua ideologia de ódio e autoritarismo. Cabe esperar que a Comissão designada pela Reitoria saiba fazer sua parte.

** Matheus Machado é formado em História, especialista em Gestão Educacional e Fake amador (@coalacroata). Escreve no Bhaz às terças-feiras.

Publicado originalmente em 05 de abril de 2013 em http://www.bhaz.com.br/o-fundo-de-verdade-na-brincadeira-do-trote-na-faculdade-de-direito-da-ufmg/

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