Nenhuma palavra sequer

Nesta semana a Anistia Internacional divulgou nota manifestando sua apreensão com a permanência de Marco Feliciano (PSC-SP) no comando da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados, afirmando ser inaceitável que alguém com posições claramente discriminatórias ocupe tal posição.

O blog da sessão norte-americana da Anistia Internacional publicou ainda um texto sobre o pastor chamado Ódio e Intolerância Encontram Apoio na Câmara dos Deputados do Brasil onde denunciaram, também, as posturas racistas do deputado carioca Jair Bolsonaro (PP-RJ), também presente na Comissão. Marco Feliciano, no entanto, não se fez de rogado: depois de dizer que só sai morto da presidência da CDHM, o pastor declarou que dia 26 de março seria o seu Dia do Fico.

O motivo pelo qual Feliciano se agarra ao cargo tal qual última tábua de salvação ainda me escapa. Como se suas frases racistas não fossem suficientes para a polêmica, ele levou Jair Bolsonaro, também envolvido em racismo, a tira-colo nas reuniões da Comissão, contribuindo para aumentar o clima de tensão. O teor de enfrentamento do vídeo divulgado pelo pastor gerou repúdio até mesmo dentro do seu partido, o PSC. Impressiona sobretudo essa tentativa meio desesperada de se manter a todo custo, sobre todas as coisas, como se acreditasse estar em algum tipo de cruzada divina. Sem nenhum trânsito com qualquer entidade, nacional ou internacional, que trabalhe com os Direitos Humanos, Marco Feliciano é, na melhor das hipóteses, um aventureiro, um golpista que tenta tomar a CDHM no susto, aproveitando uma brecha aqui, outra ali e um pequeno momento.

Gente assim é capaz de tudo, e sua última jogada é fazer-se de perseguido religioso. Em um passe de mágica o pastor transforma críticas a casos específicos de racismo, homofobia e discurso de ódio em críticas à fé e a religiosidade evangélica. Muitos críticos que tem repetido a ladainha anti-evangélica tem perigosamente dado munição para este tipo de argumento. Feliciano não está sendo acusado de ser cristão ou evangélico. Assim como todo brasileiro ele tem o pleno direito de praticar sua fé da maneira que quiser. Feliciano está sendo acusado pelos movimentos sociais e pela Anistia Internacional de ter “posições claramente discriminatórias em relação à população negra, LGBT e mulheres”, o que é muito diferente e realmente grave. No caso específico do racismo, Marco Feliciano teve ainda a infelicidade de piorar sua situação ao tentar se explicar à revista Veja, explicitando ainda mais sua leitura racista.

O problema não pode ser a religião de Feliciano, afinal de contas já houveram grandes movimentos de Direitos Humanos ligados a religiões, como o caso do pastor batista Martin Luther King. A Bíblia é um livro pródigo em regras, e na verdade uma parte muito pequena dela se refere às práticas sexuais. O trecho usualmente citado pelos homofóbicos, Levítico 18:22, que chama de “abominação” a prática, também chama de abominação, por exemplo, comer certas aves, insetos e uma série de alimentos. A questão importante aqui é perceber quais as regras descritas na Bíblia foram escolhidas para se tornarem alvo de cruzadas.

Afinal de contas, comércio desonesto também é uma “abominação” segundo a Bíblia (Provérbios 11:1), e a criação de animais de diferentes espécies juntos também é proibida (Levítico 19:19)  mas não é a Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural que Feliciano decidiu presidir. A Bíblia também tem definições de costumes sobre cortes de cabelo, vestimentas, agricultura, escravidão e criação de animais, mas não estamos vendo uma militância ativa de Feliciano na porta dos açougues, exigindo que sua dieta seja atendida.

O problema também não pode ser o partido de Feliciano, como bem lembrou o deputado Nilmario Miranda, fundador da CDHM, até mesmo o PPB (atual PP e herdeiro da Arena) já teve a presidência da dita Comissão. A questão precisa se manter nas posições específicas dos casos de discriminação de Feliciano.

Pouca atenção tem sido dada ao manifesto de 150 pastores que repudiam as declarações de Marco Feliciano e chamam à responsabilidade a comunidade evangélica. Os pastores foram claros: “Cumpre discernir que não há uma perseguição aos evangélicos; há, sim, uma situação de conflito que precisa ser equacionada, especialmente porque, para nós, o compromisso do Evangelho com os mais pobres e vulneráveis é central.” E ainda afirmaram “Nossa oração é que exemplos históricos como os do Pr. Martin Luther King, Jr. e do Bispo Desmond Tutu possam inspirar e servir de referência para a atuação dos vários parlamentares evangélicos na CDHM, levando-os a se posicionar ao lado dos que sofrem injustiças.” É importante receber de peito aberto  os evangélicos que tentam impedir que sua religião seja tomada por aventureiros preconceituosos, é preciso ouvi-los e divulgar suas posições, pois só assim podemos impedir que Feliciano pinte essa polêmica de “anti-evangélica”, o que seria uma falácia.

Lançado em 2007, o excelente documentário Porque a Bíblia Me Diz Assim é um excelente exemplo de diálogo democrático e aberto com a comunidade evangélica norte-americana sobre os direitos humanos e sobre leituras enviesadas dos livros cristãos. É uma excelente fonte de informação a todos, evangélicos ou não, que quiserem debater o tema. Fica o convite:

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Publicado originalmente no dia 22 de março de 2013 em  http://www.bhaz.com.br/nenhuma-palavra-sequer/

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