A história da Comissão Nacional da Verdade

comissaodaverdade internoCriada em maio de 2012, a Comissão Nacional da Verdade foi estabelecida com a finalidade explícita de investigar e  apurar graves violações de Direitos Humanos ocorridas entre 1946 e 1988. Ao contrário de países próximos, como a Argentina, o Brasil teve uma transição para a democracia feita sob a égide dos governos militares e o primeiro presidente civil não foi escolhido através de eleições diretas, o que afastou durante muitos anos da esfera política o debate sobre a punição para os golpistas.

  Em 1983 já era possível ver na Argentina as primeiras iniciativas substantivas para punir generais responsáveis por assassinatos e  torturas, e os governos autoritários lutavam então para prevenir o que passaram a rotular de “revanchismo”. Já se vão praticamente trinta anos e a “abertura lenta, segura e gradual” ainda não foi completamente concluída.

 Foi a  decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos em 2010 que condenou o Brasil a investigar e punir as graves violações de direitos humanos e criou a situação política necessária para a instauração da Comissão Nacional da Verdade no Brasil. As Comissões da Verdade tem sido instauradas em diversos lugares, e já há relatórios de cerca de 40 delas por todo o mundo, normalmente criadas após graves violações e abusos em momentos críticos de cada país. Provavelmente a mais famosa foi a Comissão da Verdade e da Reconciliação, criada ao fim do Apartheid na África do Sul, mas comissões semelhantes foram criadas em diversos países da América Latina após o fim das respectivas ditaduras.

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Mesmo trinta anos após o fim da ditadura, e com o último presidente militar tendo morrido há 14 anos, ainda restam forças que lutam para que os segredos da ditadura continuem guardados. Uma dessas vozes é o deputado carioca Jair Bolsonaro, ex capitão do exército e acusado em 1987 de planejar atentados para impedir a democratização, chegou a explicitar o seu anti-humanismo ao afirmar sobre os desaparecidos do Araguaia que “quem procura osso é cachoro”. Outro que faz coro é o apresentador Boris Casoy, antigo membro do Comando de Caça aos Comunistas, que tem acusado a CNV de buscar a “meia-verdade”, já que não teria como foco os abusos praticado por militantes de esquerda. É claro que não seria de esperar de um ardoroso membro do CCC uma leitura isenta da Comissão Nacional da Verdade, mas pelo menos ele poderia ter mantido intacta a lógica: em primeiro lugar os militantes de esquerda foram não só investigados como punidos, torturados e exilados não só por seus crimes como pelos crimes inventados pelos seus algozes, ao contrário dos torturadores e golpistas; em segundo lugar a violação de Direitos Humanos a que se refere a Corte Interamericana, como explicitou o ex Ministro Paulo Vannuchi, “envolve agentes de Estado e visa o indivíduo, o cidadão”. As falsas simetrias como essa são, via de regra, espantalhos, ferramentas para provocar desinformação no lugar de debate aberto.

 As Comissões da Verdade são uma vitória para os que tem batalhado para que a verdade e a memória sejam consolidados como direitos humanos. As trágicas experiências ditatoriais do século XX foram sem dúvidas fundamentais para que a memória e a verdade fossem alçadas ao primeiro plano. O uso de falsificações históricas e “desaparecimentos” não só de pessoas mas também de memórias, de experiências e vivências foi fundamental para esses regimes autoritários. O direito à verdade tem sua origem internacionalmente no Protocolo Adicional I das Convenções de Genebra, que garante a familiares de “desaparecidos” o direito de saber o sua localização e a obrigação do Estado de realizar esta investigação.

 

comisso da verdade interna 2Há também aqueles que acham que a Comissão em seu formato atual não é suficiente. Em Minas Gerais a Frente Independente pela Memória, Verdade e Justiça, fundada seis meses após a CNV, tem agregado ao seu redor ex presos políticos, ativistas e familiares de mortos e desaparecidos que consideram que não há verdade sem justiça, exigindo que os torturadores e assassinos identificados sejam punidos. Criticam ainda o que consideram vícios de origem na CNV, como o apelo à “reconciliação” presente no texto da sua lei de criação, a falta de autonomia financeira da Comissão e a permanência da cultura do sigilo, heranças. Eles também identificam instituições que consideram herdeiras da cultura autoritária e militarizada do regime de 1964, como a Polícia Militar, e concluem: “o Estado Penal vigente é o sucedâneo do Estado de Segurança Nacional – implantado pela ditadura militar.”


Além de suas próprias investigações a CNV vai poder contar com os relatórios da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (1995) e da Comissão de Anistia (2002), além de amplas pesquisas independentes já realizadas. A Comissão Nacional da Verdade já está trabalhando e deve entregar seu relatório à presidência até 2014.

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publicado originalmente no dia 31 de março de 2013 no http://santaterezatem.com.br/component/categoryblock/a-historia-da-comissao-nacional-da-verdade

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Da Comissão Nacional da Verdade

altComissão Nacional da Verdade foi criada em maio de 2012, com a finalidade explícita de investigar e apurar graves violações de Direitos Humanos, ocorridas entre 1946 e 1988. Ao contrário de países próximos, como a Argentina, o Brasil teve uma transição para a democracia feita sob a égide dos governos militares e o primeiro presidente civil não foi escolhido por meio de eleições diretas. Isto afastou durante muitos anos da esfera política o debate sobre a punição para os golpistas.

Em 1983, já era possível ver na Argentina as primeiras iniciativas substantivas para punir generais responsáveis por assassinatos e  torturas, e os governos autoritários lutavam então para prevenir o que passaram a rotular de “revanchismo”. Já se vão praticamente trinta anos e a “abertura lenta, segura e gradual” ainda não foi completamente concluída.

Foi a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos em 2010, que condenou o Brasil a investigar e punir as graves violações de direitos humanos, criando assim a situação política necessária para a instauração da Comissão Nacional da Verdade no Brasil. As Comissões da Verdade tem sido instauradas em diversos lugares, e já há relatórios de cerca de 40 delas por todo o mundo, normalmente criadas após graves violações e abusos em momentos críticos de cada país. Provavelmente, a mais famosa foi a Comissão da Verdade e da Reconciliação, criada ao fim do Apartheid na África do Sul, mas comissões semelhantes foram criadas em diversos países da América Latina após o fim das respectivas ditaduras.

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Mesmo trinta anos após o fim da ditadura, e com o último presidente militar tendo morrido há 14 anos, ainda restam forças que lutam para que os segredos da ditadura continuem guardados. Uma dessas vozes é o deputado carioca Jair Bolsonaro, ex-capitão do exército e acusado em 1987 de planejar atentados para impedir a democratização, chegou a explicitar o seu anti-humanismo ao afirmar sobre os desaparecidos do Araguaia que “quem procura osso é cachoro”. Outro que faz coro é o apresentador Boris Casoy, antigo membro do Comando de Caça aos Comunistas, que tem acusado a CNV de buscar a “meia-verdade”, já que não teria como foco os abusos praticado por militantes de esquerda. É claro que não seria de esperar de um ardoroso membro do CCC uma leitura isenta da Comissão Nacional da Verdade, mas pelo menos ele poderia ter mantido intacta a lógica: em primeiro lugar os militantes de esquerda foram não só investigados como punidos, torturados e exilados não só por seus crimes como pelos crimes inventados pelos seus algozes, ao contrário dos torturadores e golpistas; em segundo lugar a violação de Direitos Humanos a que se refere a Corte Interamericana, como explicitou o ex-ministro Paulo Vannuchi, “envolve agentes de Estado e visa o indivíduo, o cidadão”. As falsas simetrias como essa são, via de regra, espantalhos, ferramentas para provocar desinformação no lugar de debate aberto.

As Comissões da Verdade são uma vitória para os que têm batalhado para que a verdade e a memória sejam consolidadas como direitos humanos. O uso de falsificações históricas e “desaparecimentos” não só de pessoas, mas também de memórias, de experiências e vivências foi fundamental para esses regimes autoritários.

O direito à verdade tem sua origem internacionalmente no Protocolo Adicional I das Convenções de Genebra, que garante aos familiares de “desaparecidos” o direito de saber de sua localização e a obrigação do Estado de realizar esta investigação.

altHá também aqueles que acham que a Comissão em seu formato atual não é suficiente. Em Minas Gerais, a Frente Independente pela Memória, Verdade e Justiça, fundada seis meses após a CNV, tem agregado ao seu redor ex-presos políticos, ativistas e familiares de mortos e desaparecidos, que consideram que não há verdade sem justiça, exigindo que os torturadores e assassinos identificados sejam punidos. Criticam ainda o que consideram vícios de origem na CNV, como o apelo à “reconciliação” presente no texto da sua lei de criação, a falta de autonomia financeira da Comissão e a permanência da cultura do sigilo, heranças. Eles também identificam instituições que consideram herdeiras da cultura autoritária e militarizada do regime de 1964, como a Polícia Militar, e concluem: “o Estado Penal vigente é o sucedâneo do Estado de Segurança Nacional – implantado pela ditadura militar.

Além de suas próprias investigações a CNV vai poder contar com os relatórios da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (1995) e da Comissão de Anistia (2002), além de amplas pesquisas independentes já realizadas. A Comissão Nacional da Verdade já está trabalhando e deve entregar seu relatório à presidência até 2014.

Publicado originalmente em 31 de março em http://santaterezatem.com.br/component/content/article/36-mundo/630-a-historia-da-comissao-nacional-da-verdade

O último golpe de Feliciano

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As sessões presididas pelo pastor Marco Feliciano (PSC) na Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados, tem sido um show de horrores.

Durante as últimas semanas, as declarações abertamente homofóbicas e racistas do deputado, nas redes sociais, atraíram a atenção de ativistas e entidades de defesa dos Direitos Humanos, que compareceram às sessões para ver, de perto, o circo montado.

A emenda do pastor foi ainda pior que o soneto: em entrevista à revista Veja o deputado foi questionado se não temia ser visto como racista, ao que respondeu: “eu não disse que os africanos são amaldiçoados. Até porque a África é grande demais. Não tem só negros. A África do sul tem brancos.”

É a primeira vez que a CDHM será presidida por alguém processado por crime de preconceito pela Procuradoria Geral da União. A primeira sessão ficou marcada pela intransigência da presidência do pastor Marcos Feliciano, o que garantiu a manutenção de um clima tenso de enfrentamento. Militantes evangélicos conservadores, convidados pelo pastor, ocupavam desde cedo a maior parte das cadeiras destinadas ao público. Ao lado do presidente da Comissão, o deputado Jair Bolsonaro (PP), conhecido militante da tortura e da ditadura, completava o quadro sinistro. A segunda sessão, ainda sob a égide da tensão, durou 8 minutos.

Sobre as reações à ascensão aparentemente meteórica do pastor à presidência da CDHM duas coisas impressionam: a velocidade com que a sociedade reagiu, de norte a sul do país, e o silêncio dos pré-candidatos a presidente. As manifestações de repúdio às declarações preconceituosas estiveram presentes nas praças de cidades de todo país, e até mesmo Xuxa e Valeska Popozuda vieram a público criticar o preconceito de Feliciano, mas nenhum dos pré-candidatos deu qualquer declaração sobre o assunto. O silêncio dos presidenciáveis impressiona mais ainda quando se lembra que nenhum deles tem perdido qualquer chance de aparecer na mídia e adiantar a disputa eleitoral.

Os caciques do PSDB decidiram não deixar que as disputas internas afetassem as eleições e adiantaram seu cronograma para lançar, de uma vez, Aécio Neves, que tem se esforçado desde então para nacionalizar seu nome, dando declarações sobre cada nova situação política: os royalties, política externa e até mesmo o aniversário do PT foram temas de seus discursos recentes. Eduardo Campos (PSB), que não precisa lidar com disputas sérias dentro do seu partido, tem circulado entre situação e oposição, articulando entrevistas bondosas, possíveis cenários e alianças por todo o país. Marina Silva já declarou que quer seu novo partido REDE pronto até outubro, o que garantiria sua possibilidade de disputar por ele as eleições de 2014. Destes, no entanto, só Marina Silva disse algo sobre o fenômeno Feliciano e, ainda assim, no tom amorfo e insosso tem caracterizado as opiniões de Marina sobre Direitos Humanos, sem criticar explicitamente as declarações preconceituosas de Feliciano.

O silêncio dos presidenciáveis, provavelmente, é bem informado por inúmeros assessores e pesquisas de opinião sobre os temas polêmicos. Tais temas foram cruciais nas disputas eleitorais de 2010 e 2012, principalmente na campanha suja feita por panfletos e spams, que usaram e abusaram de temas relativos aos direitos de minorias, aborto e etc. O nível da campanha baixou ao ponto da esposa de José Serra afirmar que a então candidata Dilma Roussef era “a favor de matar criancinhas”. A proximidade com o discurso raivoso do pastor Silas Malafaia e suas declarações insensíveis ao tratamento da gravidez indesejada abalaram a campanha de Serra, o que passou a ser identificado com o oportunismo religioso.

A presidenta também tem se esforçado para manter distância da disputa na Câmara dos Deputados, fazendo ouvidos de mercador às denúncias de desmonte da Comissão que já foi a cara do Partido dos Trabalhadores. É uma triste lembrança, especialmente para o PT de Belo Horizonte. Aqui foi montada a primeira comissão do tipo, fundada na Câmara dos Vereadore,s pela então vereadora, Dona Helena Greco. E foidaqui também que saiu Nilmário Miranda, fundador da comissão na Câmara dos Deputados.

O deputado Fernando Gabeira (PV) lamentou que os Direitos Humanos estejam sendo abandonados pela esquerda e disse que a direita, “ao ignorar os direitos humanos, joga fora o bebê com a água de banho.”

Embora a posse do pastor Marco Feliciano tenha sido pintada como algo novo e inesperado, a articulação dos militantes conservadores, ligados a certos segmentos evangélicos, já tem algum tempo. O próprio Marco Feliciano é um novato na política, e não faz nem oito anos que declarou que “nunca se rebaixaria a ser político”. Mas a bancada que o suporta vem negociando espaço nos governos federais há um bom tempo. Desde o lançamento do primeiro Plano Nacional dos Direitos Humanos (PNDH) em 1996 já se vão 17 anos.

Quando Lula lançou a terceira fase do plano, conhecido como PNDH-3, já encontrou uma bancada evangélica conservadora forte e bem articulada. É bom dizer que eles estão em seu direito, ao se articular para eleger representantes e influenciar políticas públicas. É a forma adequada no modelo de democracia corrente. A crítica a ser feita aqui é aos que discordam mas silenciam, candidatos ou não. Uma situação de clara discriminação racial, disfarçada sob a proteção da religião, deveria gerar reações de todos os espectros da política democrática no país.

A aliança com o PSC é importante para a tal governabilidade, e todos os pré-candidatos a presidência parecem estar dispostos a rifar os Direitos Humanos para acertar ponteiros com a bancada evangélica conservadora e conseguir governar o país. A situação é tão inusitada que até mesmo os pastores evangélicos publicaram seu repúdio, mas os presidenciáveis ainda mantém seu confortável silêncio.

Enquanto o silêncio conforta os candidatos à presidência, a presença tranquila de Jair Bolsonaro na CDHM e a forma folclórica com que a imprensa trata seus abusos me angustia. O deputado, conhecido pela defesa do regime ditatorial de 1964, e por ter dito que não deveriam buscar os corpos das suas vítimas porque “quem procura osso é cachorro”, roubou o show na primeira sessão da comissão. Bolsonaro foi até os ativistas de Direitos Humanos com uma folha de papel escrita “queima a rosca todo dia”, em uma óbvia quebra de decoro, mas a situação foi tratada com proverbial leviandade pela imprensa. Em 2006 a ex-deputada Ângela Guadagnin não teve tal sorte, e foi acusada de quebra de decoro pelo seu samba inconsequente, com direito manchetes e colunas raivosas.

O silêncio que conforta, não só os ditos presidenciáveis, mas a muitos outros por aí, é também responsável pela ascensão do ódio como discurso político no Brasil, essa semente do fascismo, como bem definiu Bob Fernandes.

Cerca de cento e setenta deputados lançaram esta semana a Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos Humanos como uma resposta ao sequestro conservador da Comissão. Como diria Leminski, todas las armas son buenas, e cabe a cada um de nós, que não aceitamos que o ódio paute as políticas públicas, pensar em formas de de defender nossos direitos com as armas que pudermos. O bispo sul-afriacano Desmond Tutu, que nunca deixou que leituras enviesadas da bíblia permitissem semelhantes absurdos, já dizia que a omissão em situações de opressão equivale a escolher o lado do opressor.

** Matheus Machado é formado em História, especialista em Gestão Educacional e Fake amador (@coalacroata). Escreve no Bhaz às terças-feiras.

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Publicado originalmente em 26 de março de 2013 em http://www.bhaz.com.br/o-ultimo-golpe-de-feliciano/

Nenhuma palavra sequer

Nesta semana a Anistia Internacional divulgou nota manifestando sua apreensão com a permanência de Marco Feliciano (PSC-SP) no comando da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados, afirmando ser inaceitável que alguém com posições claramente discriminatórias ocupe tal posição.

O blog da sessão norte-americana da Anistia Internacional publicou ainda um texto sobre o pastor chamado Ódio e Intolerância Encontram Apoio na Câmara dos Deputados do Brasil onde denunciaram, também, as posturas racistas do deputado carioca Jair Bolsonaro (PP-RJ), também presente na Comissão. Marco Feliciano, no entanto, não se fez de rogado: depois de dizer que só sai morto da presidência da CDHM, o pastor declarou que dia 26 de março seria o seu Dia do Fico.

O motivo pelo qual Feliciano se agarra ao cargo tal qual última tábua de salvação ainda me escapa. Como se suas frases racistas não fossem suficientes para a polêmica, ele levou Jair Bolsonaro, também envolvido em racismo, a tira-colo nas reuniões da Comissão, contribuindo para aumentar o clima de tensão. O teor de enfrentamento do vídeo divulgado pelo pastor gerou repúdio até mesmo dentro do seu partido, o PSC. Impressiona sobretudo essa tentativa meio desesperada de se manter a todo custo, sobre todas as coisas, como se acreditasse estar em algum tipo de cruzada divina. Sem nenhum trânsito com qualquer entidade, nacional ou internacional, que trabalhe com os Direitos Humanos, Marco Feliciano é, na melhor das hipóteses, um aventureiro, um golpista que tenta tomar a CDHM no susto, aproveitando uma brecha aqui, outra ali e um pequeno momento.

Gente assim é capaz de tudo, e sua última jogada é fazer-se de perseguido religioso. Em um passe de mágica o pastor transforma críticas a casos específicos de racismo, homofobia e discurso de ódio em críticas à fé e a religiosidade evangélica. Muitos críticos que tem repetido a ladainha anti-evangélica tem perigosamente dado munição para este tipo de argumento. Feliciano não está sendo acusado de ser cristão ou evangélico. Assim como todo brasileiro ele tem o pleno direito de praticar sua fé da maneira que quiser. Feliciano está sendo acusado pelos movimentos sociais e pela Anistia Internacional de ter “posições claramente discriminatórias em relação à população negra, LGBT e mulheres”, o que é muito diferente e realmente grave. No caso específico do racismo, Marco Feliciano teve ainda a infelicidade de piorar sua situação ao tentar se explicar à revista Veja, explicitando ainda mais sua leitura racista.

O problema não pode ser a religião de Feliciano, afinal de contas já houveram grandes movimentos de Direitos Humanos ligados a religiões, como o caso do pastor batista Martin Luther King. A Bíblia é um livro pródigo em regras, e na verdade uma parte muito pequena dela se refere às práticas sexuais. O trecho usualmente citado pelos homofóbicos, Levítico 18:22, que chama de “abominação” a prática, também chama de abominação, por exemplo, comer certas aves, insetos e uma série de alimentos. A questão importante aqui é perceber quais as regras descritas na Bíblia foram escolhidas para se tornarem alvo de cruzadas.

Afinal de contas, comércio desonesto também é uma “abominação” segundo a Bíblia (Provérbios 11:1), e a criação de animais de diferentes espécies juntos também é proibida (Levítico 19:19)  mas não é a Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural que Feliciano decidiu presidir. A Bíblia também tem definições de costumes sobre cortes de cabelo, vestimentas, agricultura, escravidão e criação de animais, mas não estamos vendo uma militância ativa de Feliciano na porta dos açougues, exigindo que sua dieta seja atendida.

O problema também não pode ser o partido de Feliciano, como bem lembrou o deputado Nilmario Miranda, fundador da CDHM, até mesmo o PPB (atual PP e herdeiro da Arena) já teve a presidência da dita Comissão. A questão precisa se manter nas posições específicas dos casos de discriminação de Feliciano.

Pouca atenção tem sido dada ao manifesto de 150 pastores que repudiam as declarações de Marco Feliciano e chamam à responsabilidade a comunidade evangélica. Os pastores foram claros: “Cumpre discernir que não há uma perseguição aos evangélicos; há, sim, uma situação de conflito que precisa ser equacionada, especialmente porque, para nós, o compromisso do Evangelho com os mais pobres e vulneráveis é central.” E ainda afirmaram “Nossa oração é que exemplos históricos como os do Pr. Martin Luther King, Jr. e do Bispo Desmond Tutu possam inspirar e servir de referência para a atuação dos vários parlamentares evangélicos na CDHM, levando-os a se posicionar ao lado dos que sofrem injustiças.” É importante receber de peito aberto  os evangélicos que tentam impedir que sua religião seja tomada por aventureiros preconceituosos, é preciso ouvi-los e divulgar suas posições, pois só assim podemos impedir que Feliciano pinte essa polêmica de “anti-evangélica”, o que seria uma falácia.

Lançado em 2007, o excelente documentário Porque a Bíblia Me Diz Assim é um excelente exemplo de diálogo democrático e aberto com a comunidade evangélica norte-americana sobre os direitos humanos e sobre leituras enviesadas dos livros cristãos. É uma excelente fonte de informação a todos, evangélicos ou não, que quiserem debater o tema. Fica o convite:

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Publicado originalmente no dia 22 de março de 2013 em  http://www.bhaz.com.br/nenhuma-palavra-sequer/

Helena Greco – não existe hora certa de mudar

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“Eu acho que eu não tenho assim muita imaginação não, sabe?
E acho que é por isso que eu não tenho medo.”
Dona Helena Greco

Uma casa se destaca logo nos primeiros quarteirões da rua Hermílio Alves, na entrada do bairro Santa Tereza. O muro rubro-negro e uma árvore frondosa na varanda chamam a atenção dos passantes, que se aproximam do portão para ler o nome pintado: Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania. A casa presta uma homenagem a dona Helena Greco, humanista e referência na área de direitos humanos e feminismo em Belo Horizonte.

Dona Helena Greco nasceu em 1916 em Abaeté, a cerca de 200 quilômetros da capital, e se graduou em Farmácia na UFMG em 1937. Entretanto foi somente em 1977, mesmo ano em que surgiram as Madres de la Plaza de Mayo em Buenos Aires, que dona Helena Greco, já aos sessenta e um anos, começou a aparecer nos jornais e se tornar conhecida pelo seu ativismo em defesa dos direitos humanos.

Naquele mesmo ano fundou o Movimento Feminino pela Anistia/MG e se tornou um marco na defesa intransigente da vida e na luta contra a tortura. No ano seguinte participou da fundação do Comitê Brasileiro de Anistia/MG e passou a organizar as comemorações públicas do Dia Internacional da Mulher. Ficou conhecida por ajudar presos políticos e vítimas de tortura, mesmo após sua casa passar a ser alvo de ameaças e atentados a bomba.

Em 1979 dona Helena Greco desafiou o governo militar representando o país em Roma, no Congresso pela Anistia no Brasil. Quatro anos depois, em 1983, tomou posse como a primeira vereadora eleita de Belo Horizonte, sendo reeleita em 1989. Durante seu tempo no legislativo trabalhou pela implementação da Comissão Permanente de Direitos Humanos, a primeira do tipo no país, e pela fundação do Movimento Tortura Nunca Mais/MG. Após o fim de seu segundo mandato idealizou  ainda a Coordenadoria de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura, o primeiro órgão de direitos humanos no poder Executivo no Brasil e uma das maiores referências na área.

Charge: Nilson

Charge: Nilson

Em 1995, aos setenta e nove anos, participou da coordenação do Fórum Permanente de Luta pelos Direitos Humanos de Belo Horizonte. No mesmo ano teve seu trabalho homenageado  com o Prêmio Chico Mendes de Resistência. Recebeu ainda outros prêmios nos anos seguintes, como o Cidadania Mundial em 1999 e o Prêmio Che Guevara em 2002. Dona Helena Greco faleceu em 2011, aos noventa e cinco anos, vítima de uma pneumonia.

Helena Greco entendia o binômio Cidadania e Direitos Humanos, que hoje caracteriza o instituto que leva seu nome, como fundamentais para a construção de uma sociedade digna. Sua trajetória é um exemplo neste 8 de março, e impressiona pela determinação e coragem de uma pessoa incapaz de entregar os pontos, sempre disposta a rever seus posicionamentos de forma crítica e, assim, se renovar, recriar, reinventar.

Veja mais:
Arquivos Imperfeitos – Helena Greco

Para Dona Helena Greco

Palavra Ética: Frei Gilvander Luis e Heloísa Greco

I.H.G. – Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania
Câmara de Vereadores

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publicado originalmente no dia 08 de março de 2013 no http://santaterezatem.com.br