Religião e sindicatos na história de Belo Horizonte

Entre as novas ideias que chegaram à Minas Gerais entre o final do século XIX e o início do século XX, uma nasceu somente seis anos antes da inauguração da nova capital do estado. Em 1891, o Papa Leão XIII lançou a encíclica chamada Rerum Novarum ou, em bom português, Das Coisas Novas, através da qual a Igreja Católica entrava oficialmente no debate sobre a tal “questão social”. A Rerum Novarum reconhecia alguns dos méritos das lutas operárias do período, e foi o início do que ficou conhecido como “opção preferencial pelos pobres” dentro da Igreja Católica.

 A Confederação Católica do Trabalho (CCT) foi o principal resultado da novas coisas da Igreja Católica em Belo Horizonte. A CCT foi criada em 1919 e, apesar do nome, era mais uma central sindical católica que uma confederação. Já existiam na cidade várias associações de socorro-mútuo, cooperativas e sindicatos profissionais, como a Associação Beneficente Tipográfica (1891),  a Liga Operária (1900), a Associação dos Empregados no Comércio (1908) e a Liga dos Operários (1917), além das diversas associações de imigrantes, mas a CCT foi a primeira da cidade a colocar a religião em primeiro plano.

 Os movimentos socialistas do período manifestavam um laicismo militante que afastava parte do trabalhadores católicos, e a Confederação Católica do Trabalho trouxe a estes trabalhadores um formato conciliador de luta sindical. As irmandades católicas e Ordens Terceiras já eram formatos de agremiação conhecidos pelos mineiros, e por volta de 1925 a CCT já tinha quase mil filiados e representava cerca de duas dezenas de sindicatos, entre eles os Ferroviários, os Empregados em Fábrica de Tecidos e os Empregados da Central, além de Pedreiros, Carroceiros, Empregados em Açougue e Empregadas Domésticas.

 A Confederação Católica do Trabalho publicava semanalmente o jornal O Operário, onde eram tratadas tanto as questões estritamente políticas dos operários do período quanto a moral católica. A CCT teve um papel fundamental em Belo Horizonte nas lutas pela jornada de trabalho de 8 horas e na garantia do descanso dominical, mas foi na questão habitacional que foi mais importante. Em 1922, O Operário publicou um apelo ao Conselho Deliberativo da cidade:

 “Belo Horizonte possui áreas extensas, inteiramente desaproveitadas. De vez em quando, algum felizardo, por qualquer manobra, obtém grandes latifúndios de graça ou quase de graça. Há pessoas que possuem 60 ou 80 mil metros quadrados de terra que não podem edificar, nem cultivar. Estão retendo essas grandes propriedades exclusivamente por especulação, para revendê-las, mais tarde, por bom preço. Se isto se fez para gente rica, com graves prejuízos para o patrimônio municipal, não é fora de razão que a Prefeitura conceda uma nesgazinha insignificante, fora do centro, a uns pobres operários que trabalham para o engrandecimento da cidade.”

 Neste período, a administração municipal cedia terrenos aos que se comprometessem a atender as exigências de prazos e modelos de construção. Como nem sempre conseguiam cumprir as metas estabelecidas pelos burocratas, a população construía moradias provisórias, as cafuas, mas nem sempre isso evitava o desalojo.

 A CCT usava da conciliação como estratégia discursiva e evitava os tons de exigência e ameaça que eram comuns na imprensa operária, variando entre o apoio e a ruptura ao poder constituído. Em sua defesa do direito à moradia dos belo-horizontinos pobres, a Confederação trabalhou também para criar a Cooperativa Constructora de Casas Operarias Limitada, que financiava construções de casas, além de um serviço de assistência jurídica para auxiliar a revalidação da posse dos lotes de operários.

A Confederação Católica do Trabalho era chamada de “amarela” pelos sindicalistas socialistas e anarquistas, e acusada por parte da historiografia de ser “dócil” demais e de desviar os trabalhadores de sua causa principal. A partir de 1930 o catolicismo passou por novas mudanças de orientação no Brasil, se aproximando novamente do Estado, e adotando a estratégia de adesão às propostas governamentais que ficou conhecida como “circulismo”, e que acabou por substituir a antiga Confederação.


A experiência deste tipo de prática católica foi importante para o crescimento do sindicalismo em Belo Horizonte e fundou bases sólidas para a construção, décadas depois, da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiais de Base  na cidade. É importante perceber ainda que foi no mesmo período em que as elites mineiras se esforçavam para lapidar o mito da “Minas Católica”, que parte da população mais pobre trabalhava para a construção de uma concepção diferenciada de catolicismo, popular e militante.

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publicado originalmente em 04 de dezembro de 2013 no http://www.bhaz.com.br

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