O dono do Iate.

esportes náuticos na lagoa da pampulha
esportes náuticos na lagoa da pampulha

Marcio Lacerda é um incompreendido. Eu, pelo menos, sempre tive alguma dificuldade para compreender de onde ele tirava estas medidas esquisitas, arbitrárias, uma coisa meio Jânio Quadros de ser. Mas acho que agora eu entendi tudo. Ou pelo menos alguma coisa, ou pelo menos uma parte da coisa.

A coisa me surgiu como um estalo quando vi esta entrevista, que mais parece um relatório técnico, do engravatado prefeito no jornal dos Medioli diário oficial do governo. Se você também sempre se perguntou que tipo de política costurava aqueles decretos arbitrários de sitiar praças, perseguir hippies e skatistas, fechar parques, vender ruas, despejar de suas casas milhares de pessoas pelo bem da especulação imobiliária; se você também queria saber quais desejos profundos motivavam esta comédia de erros, acho que posso ter encontrado uma pista. Aí nesta entrevista, debaixo de todas aquelas cifras e cronogramas, está a narrativa do que, de fato, move todos os desejos do Marcinho.

Prestem atenção.

Ele começa a entrevista pelo tal Portal Sul, obra de sei lá quantos milhões de reais para desafogar o trânsito de quem vem de Nova Lima para Belo Horizonte. É a prefeitura de Belo Horizonte investindo no melhor para a mais alta burguesia da cidade, ou melhor, para a mais alta burguesia da outra cidade, afinal é em Nova Lima, a Versalhes pão de queijo, que eles pagam seus impostos e estacionam seus carrões. Aquelas vilas medievais, muradas e vigiadas por seguranças particulares.

A narrativa segue pela Savassi, outra obra milionária, em região nobre e preparada para receber os gringos da Copa, comenta a Pedro I, pra não falar que esqueceu, e deságua na Pampulha.

Bellory Hills

A Pampulha em si é um símbolo da aristocracia belorizontina. Tem algo mais a cara da aristocracia mineira que fazer um lago só para ter um iate? Idéia das mais jecas que JK saiu decalcando por onde pôde. As Obras da Pampulha são eternas, um eterno escoadouro de dinheiro público, cota socializada de um clube da aristocracia mineira. Serão mais 20 milhões por ano para controlar o assoreamento da lagoa. Mas Lacerda garante: “No mais tardar, na Copa, queremos a Lagoa da Pampulha no nível 3, para pesca e esportes náuticos sem muito contato com a água. Ainda não será para banhistas, que é o nível 2.” Ai, a Copa! Sempre ela! Claro que achei irônico que ele excluísse os banhistas, mas é implicância minha, eu sei. Mas… peraí, que papo é este de “esportes náuticos sem muito contato com a água”? Que vai rolar na Pampulha, corrida de veleiros? Corrida de lanchas?

Já percebeu onde quero chegar? Ou melhor, já percebeu onde o Lacerda queria chegar quando decidiu pedir pros compadres um apadrinhamento para se tornar prefeito e Belo Horizonte? Ele é loooouco com um iate.

Gente, tudo que o Lacerda sempre quis foi sair de carro da sua mansão no condomínio fechado onde mora no caminho para Nova Lima, não pegar nenhum trânsito, atravessar uma Savassi bonitinha, passar bem rápido por uma Antônio Carlos duplicada, já que não tem nada de bom pra ver na zona norte mesmo, e chegar com antecedência para sua corrida de veleiros na Pampulha. Já consigo imaginar sua cara de felicidade, de óculos escuros, puxando seu veleiro pelas palmeiras da Antônio Carlos, ex-governador ao lado, travado às 10 da manhã.

mordendo a orelha!

Daí a importância dos despejos: é preciso retirar tudo que não se encaixe no visual Bellory Hills que a pleiboizada jeca que comanda esta cidade tem planejado. Expulsam os pobres para cada vez mais longe da cidade, de preferência para outras cidades, abrem espaço para uma especulação imobiliária irresponsável, privilegiam obras para transporte motorizado individual, os carros, deixando cada vez mais precarizado o transporte dos moradores de periferia, aqueles expulsos dos centros.

Mas moradores de rua, skatistas, hippies, vendedores ambulantes, trabalhadores e vagabundos, tipos que se recusam a se deixar levar e reinventam um centro vivo no dia a dia, marcam cada metro da cidade em seus corpos, se recusam a partir. Daí as medidas “higiênicas”, fascistizantes. Daí o prefeito dizer que “é preciso uma campanha para que não distribuam comida” para os moradores e rua, e declarar em alto e bom som que criou “um critério em que o morador de rua não pode se estabelecer na via. Ele pode, no máximo, ficar com o cobertor. A prefeitura tem a obrigação e o direito de recolher todos os utensílios que ele estiver carregando. A prefeitura não pode arrastar a pessoa do local”.

Criou um critério“? Do que este cara pensa que está falando? Completamente coerente, Lacerda, stalinista na juventude e empresário milionário na velhice, assume que a expropriação dos mais pobres é dever do poder público. A propriedade das empresas de especulação imobiliária, no entanto, continua sagrada.

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escrito em junho de 2011, publicado originalmente em 14 de junho no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com e posteriormente no http://www.bhaz.com.br em 19 de dezembro de 2012
Tefé, Amazonas

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Religião e sindicatos na história de Belo Horizonte

Entre as novas ideias que chegaram à Minas Gerais entre o final do século XIX e o início do século XX, uma nasceu somente seis anos antes da inauguração da nova capital do estado. Em 1891, o Papa Leão XIII lançou a encíclica chamada Rerum Novarum ou, em bom português, Das Coisas Novas, através da qual a Igreja Católica entrava oficialmente no debate sobre a tal “questão social”. A Rerum Novarum reconhecia alguns dos méritos das lutas operárias do período, e foi o início do que ficou conhecido como “opção preferencial pelos pobres” dentro da Igreja Católica.

 A Confederação Católica do Trabalho (CCT) foi o principal resultado da novas coisas da Igreja Católica em Belo Horizonte. A CCT foi criada em 1919 e, apesar do nome, era mais uma central sindical católica que uma confederação. Já existiam na cidade várias associações de socorro-mútuo, cooperativas e sindicatos profissionais, como a Associação Beneficente Tipográfica (1891),  a Liga Operária (1900), a Associação dos Empregados no Comércio (1908) e a Liga dos Operários (1917), além das diversas associações de imigrantes, mas a CCT foi a primeira da cidade a colocar a religião em primeiro plano.

 Os movimentos socialistas do período manifestavam um laicismo militante que afastava parte do trabalhadores católicos, e a Confederação Católica do Trabalho trouxe a estes trabalhadores um formato conciliador de luta sindical. As irmandades católicas e Ordens Terceiras já eram formatos de agremiação conhecidos pelos mineiros, e por volta de 1925 a CCT já tinha quase mil filiados e representava cerca de duas dezenas de sindicatos, entre eles os Ferroviários, os Empregados em Fábrica de Tecidos e os Empregados da Central, além de Pedreiros, Carroceiros, Empregados em Açougue e Empregadas Domésticas.

 A Confederação Católica do Trabalho publicava semanalmente o jornal O Operário, onde eram tratadas tanto as questões estritamente políticas dos operários do período quanto a moral católica. A CCT teve um papel fundamental em Belo Horizonte nas lutas pela jornada de trabalho de 8 horas e na garantia do descanso dominical, mas foi na questão habitacional que foi mais importante. Em 1922, O Operário publicou um apelo ao Conselho Deliberativo da cidade:

 “Belo Horizonte possui áreas extensas, inteiramente desaproveitadas. De vez em quando, algum felizardo, por qualquer manobra, obtém grandes latifúndios de graça ou quase de graça. Há pessoas que possuem 60 ou 80 mil metros quadrados de terra que não podem edificar, nem cultivar. Estão retendo essas grandes propriedades exclusivamente por especulação, para revendê-las, mais tarde, por bom preço. Se isto se fez para gente rica, com graves prejuízos para o patrimônio municipal, não é fora de razão que a Prefeitura conceda uma nesgazinha insignificante, fora do centro, a uns pobres operários que trabalham para o engrandecimento da cidade.”

 Neste período, a administração municipal cedia terrenos aos que se comprometessem a atender as exigências de prazos e modelos de construção. Como nem sempre conseguiam cumprir as metas estabelecidas pelos burocratas, a população construía moradias provisórias, as cafuas, mas nem sempre isso evitava o desalojo.

 A CCT usava da conciliação como estratégia discursiva e evitava os tons de exigência e ameaça que eram comuns na imprensa operária, variando entre o apoio e a ruptura ao poder constituído. Em sua defesa do direito à moradia dos belo-horizontinos pobres, a Confederação trabalhou também para criar a Cooperativa Constructora de Casas Operarias Limitada, que financiava construções de casas, além de um serviço de assistência jurídica para auxiliar a revalidação da posse dos lotes de operários.

A Confederação Católica do Trabalho era chamada de “amarela” pelos sindicalistas socialistas e anarquistas, e acusada por parte da historiografia de ser “dócil” demais e de desviar os trabalhadores de sua causa principal. A partir de 1930 o catolicismo passou por novas mudanças de orientação no Brasil, se aproximando novamente do Estado, e adotando a estratégia de adesão às propostas governamentais que ficou conhecida como “circulismo”, e que acabou por substituir a antiga Confederação.


A experiência deste tipo de prática católica foi importante para o crescimento do sindicalismo em Belo Horizonte e fundou bases sólidas para a construção, décadas depois, da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiais de Base  na cidade. É importante perceber ainda que foi no mesmo período em que as elites mineiras se esforçavam para lapidar o mito da “Minas Católica”, que parte da população mais pobre trabalhava para a construção de uma concepção diferenciada de catolicismo, popular e militante.

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publicado originalmente em 04 de dezembro de 2013 no http://www.bhaz.com.br