Uma cidade de recém-chegados

A Nova Capital de Minas Gerais foi formulada e construída em um período de intensas mudanças no país. O fim da escravidão, da monarquia, a imigração em massa de europeus, as novidades tecnológicas, o avanço científico e, principalmente, as tais “novas ideias” marcaram profundamente Belo Horizonte. A crise na Europa veio ao encontro do projeto racista de “branqueamento” pautado pelas elites brasileiras e catalisou a vinda de milhares de europeus para o estado.

Em suas Reflexões Sobre o Exílio, o filósofo Edward Said afirma que a guerra moderna, o imperialismo e o totalitarismo fizeram de nossa época “a era do refugiado, da pessoa deslocada, da imigração em massa.” A diferença de outros períodos, segundo ele, seria principalmente a quantidade: nossa era foi pródiga em guerras, crises e revoluções, causando o deslocamento forçado de pessoas em uma escala inédita.

De 1888 a 1898, Minas Gerais adotou uma série de políticas de incentivos e subsídios para a imigração. Houve até mesmo uma Superintendência da Emigração na Europa, que divulgava em Gênova as vantagens da emigração. Atraídos pelas oportunidades da Nova Capital, muitos imigrantes vieram a Minas servir como braços na construção civil ou como importadores, utilizando seus contatos de além-mar. Entre 1894 e a inauguração da cidade entraram, oficialmente, cerca de 50 mil estrangeiros no estado. Somente em 1896 vieram cerca de 19 mil italianos, 3 mil espanhóis e 400 portugueses. No início do século XX, os estrangeiros representavam 15% dos habitantes da cidade.

A Hospedaria de Imigrantes, no antigo bairro da Imigração (atual Santa Tereza), recebeu milhares deles pelo menos temporariamente. O Hotel Floresta, fundado por um polaco e um espanhol, também recebeu inúmeros imigrantes. A maior parte dos italianos pobres acabou por se fixar inicialmente na zona operária do Barro Preto, mas a especulação imobiliária cuidou de dispersar os moradores do bairro ao longo dos anos.

Durante algum tempo a Rua dos Caetés, no antigo Bairro do Comércio e hoje Hipercentro da cidade, ficou famosa pela qualidade das roupas e tecidos trazidos pelos imigrantes que ali estabeleceram seus comércios, principalmente sírio-libaneses – sempre tratados por turcos – e judeus. Muitos imigrantes ainda trabalhavam como vendedores ambulantes e mascates. O comércio da região mudou de cara quando foi invadido por produtos importados de outros lugares mais baratos, mas de pior qualidade, forçando os antigos comerciantes a venderem seus pontos.

Em Belo Horizonte, apesar desse grande fluxo, os imigrantes não se organizaram em bairros próprios, como em São Paulo e Curitiba, por exemplo. Os imigrantes que chegavam às cidades brasileiras no final do século XIX encontravam cidades prontas, com bairros consolidados e relações de vizinhanças estabelecidas. Nem mesmo os habitantes do antigo arraial eram, de fato, nativos do novo município, posto que a maior parte do arraial já havia sido destruída e não restava muito daquela paisagem. Eram todos, afinal, recém-chegados à nova cidade.

A Comissão Construtora agiu dissolvendo as diferenças de origem e organizando seus habitantes de acordo com sua condição social. Os imigrantes foram principalmente divididos por suas qualificações profissionais: engenheiros, arquitetos, médicos, empreiteiros e outros profissionais liberais conseguiram facilidades para conseguir lotes, enquanto os trabalhadores da construção civil se amontoaram nas ocupações irregulares. Muitos foram também para as colônias agrícolas, que deveriam abastecer a cidade de produtos hortifrutigranjeiros.

Mas, enquanto na cidade de São Paulo os japoneses se concentraram no bairro Liberdade e em Curitiba os poloneses se organizaram em Orleans, em Belo Horizonte não vimos a consolidação de guetos nacionais. Tivemos, no entanto, uma profusão de regiões ligadas à classe social e atividade profissional, como as vilas e favelas de operários e trabalhadores urbanos, os bairros de funcionários públicos, de executivos das grandes empresas que chegavam e etc. A Nova Capital foi planejada por uma elite financeira e intelectual que se imaginava cosmopolita e a cidade em construção refletia isso, diluindo as diferenças de estrangeiros e brasileiros a fim de consolidar uma cidade que reforçasse outras diferenças: de classe.
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publicado originalmente em 27 de novembro de 2012 no http://www.bhaz.com.br

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