Belo Horizonte: Riachos e Favelas

Em sua Memória Histórica e Descritiva de Belo Horizonte, o historiador Abílio Barreto descreve assim a Estação de Minas, onde hoje fica o complexo da Praça da Estação, e onde surgiu a primeira favela da cidade, pouco acima da rua Sapucaí:

“A Estação de Minas era um provisório barracão de tábuas coberto de zinco, plantado no meio da esplanada que estava sendo preparada. Atrás dela, pelo alto da colina, acima da projetada Rua Sapucaí, ia-se adensando uma povoação de cafuas e barracões de zinco, a que o povo denominava Favela ou Alto da Estação ou Morro da Estação. Denominava-se Favela por ser muito semelhante ao morro de igual nome existente no Rio de Janeiro.”

Logo em sua principal porta de entrada a cidade explicitava suas contradições. A nova capital havia sido inaugurada ainda incompleta, as obras por todas as partes ainda precisavam de trabalhadores, mas a administração da cidade continuava a impedir que os trabalhadores conseguissem a propriedade de terrenos dentro da zona urbana.

Dentro dos limites da Avenida do Contorno o preço dos lotes era propositalmente elevado, e as diversas exigências feitas aos possíveis compradores, inclusive quanto à forma de construção da casa, impediam o acesso a migrantes e imigrantes recém-chegados para trabalhar na construção da cidade. A nova capital nascia sob o signo da especulação imobiliária.

Muitos trabalhadores passaram a dormir nos canteiros de obras, outros se organizaram em ocupações. Mesmo na zona suburbana os trabalhadores tinham dificuldades de conseguir a propriedade dos lotes. A solução era (e ainda é) ir para cada vez mais longe, onde não havia fiscalização ou repressão da cavalaria. Aos que se recusavam a passar horas no trajeto diário de casa ao trabalho restavam (e ainda restam) as favelas. Além do Morro da Estação, havia ainda a Favela do Leitão, construída às margens do córrego hoje canalizado sob as avenidas Prudente de Morais e São Paulo, e a Favela do Barroca.

A partir de 1900, a administração municipal começou a ceder às pressões populares e passou a conceder lotes na região do bairro Barro Preto aos operários. Em 1902, o Alto da Estação foi completamente desalojado e pelo menos 300 casas foram destruídas para dar lugar à construção do que veio a ser o bairro Floresta. A questão da habitação popular só começou a ser levada realmente a sério em 1918, três décadas após a inauguração da cidade e após uma série de greves que assustaram as elites locais, quando aprovaram a construção de vilas operárias dentro da cidade, escolhendo o mesmo Barro Preto para a primeira iniciativa. Pouco depois, por volta de 1925, foi a vez da Favela do Leitão, desalojada para garantir a construção do Lourdes e a canalização do córrego.

As ocupações irregulares se deram, principalmente, seguindo os córregos da região, forma prática de garantir o acesso à água, já que não poderiam depender dos serviços públicos. Além do córrego do Leitão e do Barroca, muitos ocuparam as margens do ribeirão Arrudas em direção a Sabará e a zona leste da cidade. Estes trabalhadores ribeirinhos, construtores de fato de Belo Horizonte, foram os principais alvos da especulação imobiliária e da política de repressão às moradias irregulares.

Nas margens dos riachos, as ocupações irregulares criavam seus lugares comuns, fontes de água, local de lavar as roupas, de jogar bola, de se encontrar. A canalização em muitos casos serviu como uma ferramenta do desalojo, expulsando famílias pobres de suas casas ao mesmo tempo em que jogavam pelo cano os riachos e seus espaços de socialidade. A canalização dos córregos se transformou em uma arma de gentrificação a serviço da especulação imobiliária. É a cidade desmemória, que apaga os rastros de seu passado, cidade que faz de seu território uma máquina planejada contra seus habitantes. Uma cidade que só pode sê-lo para alguns de seus habitantes.

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publicado originalmente em 21 de novembro de 2012 no http://www.bhaz.com.br

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