e você não está mais no mesmo lugar

as vezes eu olho pro lado e fico feliz só de estar no solimões. só de estar em outro lugar, só de estar longe, de ser em outra parte outra possibilidade de ser. de estar longe de um eu. ser depende do contexto, depende do entorno, depende da vizinhança. depende dos hábitos, das conversas, dos parceiros de buteco, das possibilidades, do horizonte de expectativas.

francis fukuyama feelings
francis fukuyama feelings

eu nasci nos anos 80, mas adolesci nos anos 90, quando todos declaravam o fim da história. mesmo com tudo para afirmar o oposto. depois de um século de guerra entre capitalismo de estado e capitalismo de mercado, uma guerra (nada fria) principalmente de invasão e ocupação de nossos horizontes de expectativas, decretavam o fim, sem sequer nos consultar. eu cresci no fim. as possibilidades, diziam, haviam se esgotado. ao vencedor, as batatas (neste caso fritas e acompanhadas de sanduíche e refrigerante). sem possibilidades, não havia mais espaço para a imaginação, para a criação, havia uma única via (chamada pelos “moderados” de terceira). foi a década da realpolitik, da efetividade, da técnica. ah!, os técnicos!

numa antiguidade sonhada grega pelo ocidente (que também se sonha ocidental) uma jovem aspirava os ares que saíam das rochas e, inspirada pelos deuses, tecia complexos enigmas sobre o futuro. aos pobres hércules de então restava lidar com aqueles destinos traçados, aceitar os trabalhos, limpar os estábulos. nos anos 90 em que adolesci, a televisão nos mostrava yuppies engravatados que aspiravam pó nos banheiros e nos diziam, em complexa linguagem técnica, como as coisas iam ser. ninguém entendia, mas era tudo técnico, científico. chega de política na economia!, bradavam, basta de ideologias! e se diziam acima daquilo tudo, apenas homens com calculadoras. estes técnicos-pytonisas, virgens engravatados aspirando estranhos humores, inspirados por figuras cinzentas nos bastidores, foram as figuras mais emblemáticas dos anos 90. a nós outros restou limpar os estábulos. e como limpamos!

me lembro que já no final dos anos 90, estava em uma passeata contra o aumento das passagens em bh (não me lembro bem, mas acho que chegava então a assombrosos 65 centavos) e um senhor  olhou pra mim e disse: o comunismo acabou! fiquei pasmo. o que diabos queria dizer aquilo? o que deveria responder? e o que tinha eu, ou meus 4 ônibus diários, a ver com gorbachev?

a queda do comunismo de moscou, diziam, era a prova cabal de que o capitalismo novaiorquino era a única possibilidade. como se tivéssemos somente estas duas opções, como se os impérios fossem a única possibilidade de existir, como se o mundo não fosse maior, como se as possibilidades de organização social não fossem infinitas, como se algum técnico pudesse usar uma calculadora científica para definir, em análise combinatória, tudo o que poderíamos ser. coisa de doido. o primeiro e o segundo mundo foram, no século xx, as viseiras que usaram para nos impedir de olhar para os lados, de nos enxergar.

o fim da história, o fim das possibilidades, a vitória que se apresentava inequívoca de um projeto, era também o fim dos sujeitos. sem ter como agir, sem ter como influenciar os destinos de um mundo que se dizia já sem futuro, deixávamos de ser sujeitos da história para nos tornar objetos de um projeto.

um dia alguém há de estudar este tipo de milenarismo maluco que acometeu o ocidente no final do século xx: o fim do mundo declarado por axioma científico, por análise combinatória sociológica.

e quando parecia que não podiam inventar nada mais, declararam também o fim do espaço. em pleno final do século xx, o neoliberalismo retirava o que ainda havia de cosmopolitismo no liberalismo para pregar uma nova espécie de nacionalismo: a jequice universal. era a aldeia global, diziam.

pra quem ainda prestava atenção tudo aquilo parecia uma loucura, uma leitura on acids de darcy ribeiro: estaríamos todos fadados a ser civilizados, a entrarmos para a sociedade envolvente. e assim seríamos todos, enfim, ocidentais. 


imaginavam que se os chineses comessem no macdonalds, se os árabes vestissem adidas, que se indianos usassem talheres e se os indígenas dirigissem suvs, seriam então globalizados, seriam então ocidentais. não é só que narciso acha feio o que não espelho, é que ele sequer o vê. era a redução absoluta do outro a um mínimo denominador comum de si. restariam, claro, as versões em fastfood, todo um mundo in box, pedidos pelo número e acompanhados do seu refrigerante favorito desta ou daquela company.

mas a geografia é mais difícil de ser domada que a história, é mais óbvia. há sempre os coyotes para nos atravessar pelo deserto, há sempre a trilha por fora das cercas, há sempre a migração. há sempre o movimento.

aos narcisos, encantados que estavam com a própria ereção, só havia similitude. não viam que na repetição também há diferenciação. mesmo nos espelhos, sempre a diferenciação, a criação de diferenças, de sujeitos que se recusam à sujeição a qualquer analista. não era uma questão de contrários, mas de multiplicidades, de infinitas possibilidades. como um caleidoscópio que reage a cada toque, que se modifica, inclui o novo no seu.

a tv chamava de “antiglobalização” os que protestavam nas portas dos encontros do g8, da omc e do bid, o que não deixava de ser irônico já que se organizavam globalmente e tinham como um dos motes a globalização da esperança. é que a globalização nunca foi uma questão de livre comércio – embora tenham feito de tudo para dirigi-la, controlá-la – a globalização é  – e não “foi”, já que ainda é – uma questão de antropofagia. “só me interessa o que não é meu!”. mastigar, deglutir, ingerir, digerir: conhecer, absorver, adaptar, criar. oswald de andrade um, yuppies zero. é encontro, não controle.

mas, como diria a presidenta, tergiverso. onde estava mesmo?

coraci (por mariana oliveira!)
coraci (por mariana oliveira!)

ah, é! longe de mim, eu estava/era (estou/sou?) longe de um eu. se mover nas paisagens é entrar em contato com novos horizontes, é realizar novas expectativas. é perceber que um outro mundo é possível não porque alguém decidiu colocar isto como palavra de ordem de uma feira de curiosidades políticas, mas porque outros mundos estão sendo possíveis agora, ali e acolá, por todas as partes. infinitos mundos não só possíveis como realizados dentro deste mundo, como numa ficção científica em papel barato (ou na tv aberta). se mover é entrar em contato com as formas infinitas de organização social. casas flutuantes na amazônia e arranha-céus no ipiranga, hipnóticas cidades submersas de encantes e imaginários guerrilheiros em sierra maestra. ou cobra-grande e derivativos (que todos insistem serem falsificações mas que os locais insistem que existe e abala estruturas).

se mover é reivindicar o espaço. e há sempre o movimento, nem que seja o movimento dos astros, o tempo em eterno movimento, refutando cada axioma, confundindo cada hipótese. eterno desfazer, criar e destruir, sempre no infinitivo, sempre o verbo (e não só no princípio, como reza o livro), garantindo que sempre existirão possibilidades, sempre ação (para os que decidirem agir, claro), nos lembrando que sempre existirão novos horizontes a alcançar, a vislumbrar. tempo e espaço, afinal são uma mesma dimensão.

[/fim]

ps: este texto contou com a ajuda inestimável de amig@s que perceberam que eu tenho desvio de atenção e um problema gigantesco para colocar vírgulas nos textos já que estou acostumado mesmo é a falar alto e porque sem um copo de cerveja na mão e não sei a hora de respirar, entende? [respira] meus agradecimentos!

~~x~~
escrito inicialmente em maio de 2011 na RDS Mamirauá (Amazonas), repensado e reescrito em fevereiro de 2012 na Isla Margarita (Venezuela). Publicado originalmente em 23 de fevereiro no extinto  http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com

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