o buraco é lááá em baixo, colega…

(segundo gole)

muita gente se assustou com a idéia do multisseriado, mas para mim é uma solução excelente. não existe, de fato, um bom motivo para agrupar os estudantes de acordo com a data de nascimento, não é como se eles fossem produtos, organizados por lote e data de fabricação. há diversas outras formas mais inteligentes de agrupá-los, de acordo com seus interesses ou dificuldades, por exemplo. ou poderíamos deixar que eles mesmo se organizassem. a escola da ponte, famosa experiência pedagógica libertária portuguesa, salvo engano, trabalha em um regime que poderíamos chamar de mulstisseriado, e várias destas escolas alternativas caras tem experimentos nesta linha. o multisseriado resolve, por exemplo, a tal marginalização promovida pela repetência, visto que os estudantes permanecem na mesma turma, embora sob cuidados diferenciados.

no caso de maraã, e dos demais municípios do interior, isto provavelmente foi determinado mais pelas circunstâncias que por alguma opção político-pedagógica. na comunidade onde eu estava devíamos ter cerca de setenta estudantes matriculados, uns quarenta e cinco frequentes, entre jardim de infância, primeira a sexta séries e duas turmas de EJA, para três professores. com o multisseriado possuíamos quatro turmas, mas se os dividíssemos em séries específicas passaríamos a nove, algumas com um ou dois estudantes, duplicando a carga horário dos professores e os gastos do município. com meus dois cargos eu possuía trinta e cinco estudantes matriculados, uns vinte e cinco deles presentes. agora considerem que um professor de história do estado de minas gerais, com um cargo de dezoito horas semanais, tenha que lidar com nove turmas de quarenta e cinco estudantes. vamos supor que este professor mineiro seja especialmente ingênuo, o suficiente para se arriscar a avaliações dissertativas, assumindo que na base de marcar x não se anda muito. imaginem que ele peça aos estudantes um pequeno trabalho ou uma redação, nada muito grande, uma página. bom, este professor acaba de ganhar quatrocentas páginas para corrigir no fim de semana. se ele tiver dois cargos, como eu aqui e como quase todos os concursados depois dos cortes do aécio, ele tem o dobro disso. agora me digam, maraã ainda parece tão absurdo?

o fato de um mesmo professor dar todas as matérias tampouco deveria ser assim tão assustador. de primeira à quinta séries a maior parte das escolas sequer contrata especialistas em suas disciplinas, é o império dos pedagogos. disciplinas como estudos sociais, ou ciências, sempre foram muito bem aceitas, e no entanto não eram muito diferentes disto: professores ensinando mais de uma disciplina, em áreas que nem sempre tinham domínio. são experiências que poderiam abrir pontes de transdisiplinaridade, embora, via de regra, não o fizessem. novamente, o modelo de maraã provavelmente decorre da necessidade. História, Ciências, Matemática, Português, Geografia, Educação Física, Língua Extrangeira, temos sete matérias, nove se trocássemos Ciências por Biologia, Física e Química para as séries avançadas, dez se incluíssemos Artes, sempre esquecida. considerando que no parágrafo anterior havíamos duplicado os custos com professores da escola comunitária dividindo os estudantes em séries específicas, se exigíssemos um professor por disciplina neste parágrafo – e eu espero muito que o ministro esteja lendo isto – chegaríamos a conclusão de que a pequena maraã devia ter seu orçamento com professores multiplicado por algo entre quatorze e vinte vezes.

mas o buraco, pra variar, é ainda mais em baixo. mesmo que maraã tivesse entre quatorze e vinte vezes mais verba para educação, seja acabando com a corrupção dos coronéis, seja taxando toda a ocaína que desce o rio japurá sob as toneladas de brita das balsas, como vocês esperam convencer todos estes professores a se mudar para as comunidades para lecionar sete ou oito horas-aula por semana? a não ser que estejamos falando de uma comunidade de tipos-ideais soviéticos, onde quem torra a farinha também leciona química, onde os caçadores sejam geógrafos graduados, os pescadores biólogos e os que trabalham no roçado discursassem sobre linguística construtivista, a não ser que estejamos falando disto, não há o que falar.

o copo na minha mesa, impaciente com a lenga lenga deste texto longo longo, cheio até o topo com um café que só esfria, posto que eu só escrevo, me interrompe. “então é isto? tá tudo bom do jeito que tá? é o melhor dos mundos, cândido?” eu dou um gole. não, claro que não.

~~x~~
escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente em 11 de abril no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas

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