o buraco é láááá em baixo, colega…

um texto para meu copo de café
(dividido em três goles)

recebi muitos comentários sobre a descrição que fiz da escola na comunidade onde estive. sobretudo muita gente assustada, impressionada. uma amiga jornalista queria fazer uma matéria sobre o assunto, outra, socióloga, fez com que o post chegasse até o ministro da educação.

[rá! eu que passei boa parte da minha vida escolar esperando que meus textos desaforados chegassem aos ministros da educação, fui conseguir algum sucesso só no mais despreocupado deles!]

a falha é minha, talvez tenha pesado a mão num certo exotismo, compromissado que estava mais em mandar notícias para pessoas queridas que em descrever a situação escolar. o fato é que o que alguns identificaram como problemas no sistema educacional do interior do amazonas, são na verdade soluções bem interessantes. não me entendam mal, há muita coisa a ser denunciada, mas é preciso olhar pro fogo, não pra fumaça.

* * *

considerando as problemáticas de cada caso, algumas das opções de um município como maraã são muito mais inteligentes e criativas que as solucionáticas dos dadá-maravilha que carimbam pela secretaria de educação de minas gerais por exmplo.

imaginem a dificuldade de se organizar escolas em pouco mais de uma centena de comunidades com cerca de dez casas cada (mas podendo variar entre quatro e cem!), onde pouquíssimas pessoas passaram por algum processo de escolarização. tenham em mente que a única forma de se chegar a estas comunidades é pelos rios, horas de distância umas das outras. imaginem ainda que estas comunidades não sejam estáticas, que a migração seja extremamente comum e que o tamanho das comunidades possa variar, ou até mesmo que elas possam se desfazer, ou que uma nova possa surgir em um outro entroncamento de rios. este fluxo permanente, no entanto, não significa que os comunitários estejam prontos a aceitar os desmandos da secretaria de educação (semed), muito pelo contrário, cada mudança precisa ser detidamente conversada e acordada. entre os professores há o caso famoso de uma presidenta de uma comundiade que esperava a secretária de educação de borduna em mãos. exemplo que alguns de nós esperávamos ser seguido pela outra presidenta.

não se pode esquecer do fluxo do rio! nas cheias os estudantes vão pras aulas de canoas, mas em cheias muito grandes, como no ano passado, as aulas precisam se interrompidas. quando as secas são muito fortes, como a última, muitas comunidades ficam isoladas, em algumas os pescadores precisam de gastar mais tempo na pesca, dificultando a presença deles e seus filhos na escola. creio que nas comunidades em terra firme haja algo semelhante com a caça e o roçado. durante alguns períodos do ano em que a comunidade se mobiliza para alguma produção específica, pesca manejada, chocolate ou castanha por exemplo, a presença em sala de aula é mínima. o fluxo do rio também é determinante para o contato com as cidades, e isto inclui a chegada ou partida de professores, víveres e materiais para a escola. sem contar o diesel, fundamental para o motor de luz que, em situações normais, garante escassas três horas de luz diárias.

* * *

faço uma pausa para passar um café.o texto está ficando muito longo, será que alguém ainda está lendo? será que o ministro leu? na verdade importa pouco, escrevo para meu copo de café.

~~x~~
escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente em 10 de abril no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas

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