vago

depois de dois meses no interior eu tinha ido a manaus resolver umas coisas, complicar outras, ver no que dava. o recreio chegou cedo, perto das cinco da manhã. deixo uma amiga no taxi, anoto a placa e espero o dia amanhecer. amanhece e começo a andar pelo centro de manaus a esmo, seguindos os fluxos, só pra ver, só pra andar. o trânsito ainda preguiçoso, as lojas ainda fechadas, mas os camelôs já ativos, montando barracas, distribuindo produtos pelas calçadas, disputando palmo a palmo as esquinas, medindo as ruas. imponente, um camelô com espírito de leônidas desafia a curva do corredor de ônibus com sua barraquinha, aparentemente disposto a voltar pra casa com sua barraquinha ou sobre ela. e os ônibus passam zunindo, gritando, não mais que ele, é claro, oooolha o dvd, colega, baratinho!

o centro está cheio de casas antigas, com suas datas inscritas no topo, principalmente da virada do século, do início da república, quase sempre desabitadas, com as portas fechadas com tapumes e muita erva daninha escorrendo pelas paredes. algumas janelas quebradas deixam adivinhar verdadeiros jardins dentro das antigas construções, árvores já grandes, mamonas, mamões e até manga. não se preocupem, não vou falar que “a floresta toma de volta…” qualquer coisa, seria uma bobagem. não só porque não há a floresta, como porque não é uma questão de toma-lá-dá-cá, uma jogo de xadrez entre uma natureza e uma cidade encarnadas, este mito meio religioso de um homem que é outra coisa que não natureza. mas as casas não deixam de ser imagens interessantes, peculiares.

fui ao banco e percebi que estava duro, duro, duro. fiquei uns quinze minutos olhando pro caixa automático, como que esperando que algum TILT me desse uma bola extra. nada. tinha 20 reais no bolso e nada mais. saí, comi uma tapioca com manteiga e um suco de cupu com umas senhoras perto do porto. voltei ao banco, disposto a sacar meu paraquedas, aquela grana guardada para uma emergência, aquela que tinha dito que não ia pegar. mas o banco tem mais palavra que eu e diz que eu não posso pegara grana em menos de quatro dias. beleza, parei no único banco de palavra do universo. tento no caixa ao lado, dá no mesmo. deve ser alguma epidemia. recorro ao crédito, o agiota do homem moderno, branco e civilizado. nunca falha. saio pra caminhar de novo, antes que quebrem minhas pernas.

não sei se havia me desacostumado ou se era influência do meu humor, mas o trânsito de manaus é o caos e a treva, como diria um conhecido. vou andando e matutando sobre as dívidas, os empregos, as portas na cara, e então começa a chover. beleza. ótimo. bom mesmo.

procuro uma marquise. de repente olho pra frente e um michael jackson caboclo, de roupas rasgadas e cabelo brilhante de um produto qualquer está passando o chapéu em meio a um tanto de gente. ele se desculpa a todos, dizendo que vai fazer jus ao dinheiro e que, mesmo que chova, ele vai dançar. ele era caboclo, tinha a pele envelhecida pelo sol, o cabelo raspado nas laterais e longo em cima, cacheado mas esticado, brilhante, sua jaqueta preta possui um imenso rasgo debaixo do braço, suas meias brancas estavam sujas, escurecidas, seu chapéu amassado. mas a ginga estava intacta! e ele estava ali, na chuva, em meio a gritinhos, caminhadas acompanhadas de estalos nos dedos e no matters if you are black or white. Não havia gilberto freyre suficiente para lidar com a cena. a música acaba, a chuva diminui, meu celular toca, me levanto e vou para a rua lateral, para não atrapalhar o espetáculo. volto por dentro de uma pastelaria, e quando chego o michael jackson mambembe está no meio de she’s just a girl who claims that i am the one! but the kiiiid it’s not my son!, ele corre até o som, diminui o volume e diz quando eu der o passinho pra trás, vocês aplaudem, tá? é o passinho que mais gosto!ele dá um moonwalk desajeitado, vago, e eu aplaudo efusivamente, só eu, depois mais um, depois mais outra, e só. vou embora com a billie jean mambembe na cabeça, resolver meus problemas e arrumar outros.

 

~~x~~
escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente em 06 de abril no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas

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