o buraco é láá em baixo, colega…

(terceiro gole)

não, não é o melhor dos mundos, mas os problemas são outros. e os problemas do sistema de ensino do interior do amazonas não são suas diferenças, mas justamente suas semelhanças com o resto do país. e não adianta bolar soluções que custem vinte vezes o orçamento, já que os podres poderes não parecem querer taxar a cocaína que desce o rio ou acabar com a corrupção dos coronéis. me proponho aqui a citar um par de ideas, não necessariamente simples, nem necessariamente novas, mas que devem caber no orçamento oficial e que já seriam de grande ajuda.

.material didático

não sei quem foi o burocrata tapado, e minha internet tefeense me impossibilita de buscar, que um dia decidiu que a maior parte dos gastos das escolas deveria ser em investimentos “palpáveis”. eu não sei o que o dadá-maravilha dos carimbos no mec queria com isto, mas sei que ajudou o brasil a criar um dos maiores mercados de livro didático e a diminuir consideravelmente os gastos em investimento nos professores, “não palpáveis”. as comunidades que conheci, no entanto, não possuíam este problema: em maraã os livros mais novos eram de 2001, em alvarães sequer existem.

quem dera o maior problema do material fosse sua idade. este material é o mesmo utilizado nas grandes cidades, homogeneizado de norte a sul. e daí? bom daí que se reportam a uma realidade outra. os exemplos do livro de matemática são com maçãs e morangos, os textos falam de números de apartamentos, ônibus, telefones e ruas. quase arranquei algumas páginas dos livros de história antes de entregá-los aos estudantes: temia que os exemplos de índios dos livros ofendesse alguém. praticamente todos possuíam parentes em aldeias próximas, e nenhum deles se parecia com aquele curupira branquelo e ruivo que ilustrava o livro didático com aquela pegada freyreana das “três raças”. o livro de ciências começava pedindo ao professor para ligar o aparelho de som com “sons da natureza”, para relaxar os estudantes e os distanciar da vida agitada dos “sons da cidade”. alguém chama o arnaldo césar coelho pra mim, deve ter alguma regra clara contra isto.

o material de alfabetização chegava a ser cruel. uma criança de uma cidade grande está em contato com letras vinte e quatro horas por dia. elas brilham na tv, andam nos ônibus, se multiplicam nos jornais, ilustram nas revistas, crescem nos outdoors e até abraçam nas roupas. todos as comidas, utensílios e produtos da casa estão cheio de letrinhas, marcas, modos de usar e etc. em uma comunidade ribeirinha é provável que a criança só veja letras sazonalmente, na escola.

é impraticável utilizar os mesmos livros. o material didático precisa ser contextualizado, precisa ser pensado para as especificidades locais e, mais que tudo, precisa ser debatido e contar com a participação direta de professores e comunitários. estou certo de que com a verba não gasta em novos materiais as prefeituras podem produzir materiais próprios, de preferência com parcerias com as universidades federais e estaduais. e seria um “investimento palpável”.

.capacitação

os professores precisam morar nas comunidades. isto é uma questão de logística mas também serve como garantia de um contato com a dinâmica local, para o processo escolar ser interiorizado, deixar de ser algo injetado na comunidade, ganhar autonomia e passar a ser produzido ali. é tambem um fator preponderante para os comunitários. nisto as semed estão certíssimas. mas é preciso que a licenciatura deixe de ser um trabalho temporário, precarizado, um bico.

atualmente a prefeitura de maraã demite os professores em dezembro e contrata em fevereiro, o que faz com a maior parte dos professores mantenha outro emprego temporário, principalmente mototaxi. sem estabilidade, sujeitos às mudanças de humores das eleições, poucos se vêem como professores, e praticamente não há investimento na capacitação. concurso público? nem pensar. em alvarães sequer assinam carteira, é na base da “folha de pagamento”. bom, eu sei que exigir estabilidade e concurso público contraria o que eu havia dito sobre não exigir demais do orçamento municipal, mas pera lá, este já devia ser um ponto pacífico há uns oitenta anos!

eu disse que o multisseriado e a transdisciplinaridade involuntárias e obrigatórias daqui abrem diversas possibilidades interessantes, mas para que elas se concretizem é preciso que sejam pensadas e trabalhadas com tempo. não adianta avisar o professor para ir para esta ou aquela comunidade com três dias de antecedência, e trocar todo o efetivo das comunidades de ano pra ano.

.currículo

bom, agora sim temos um problema, uma destas coisas absurdas que deveriam chocar a todos… mas que ninguém liga. por que diabos eu devo ensinar unificação alemã? bom, é um tema instigante pra mim, claro, mas não é este o ponto, é?

ivan illich, no sociedade desescolarizada, tem um uma sacada genial. ele pergunta, qual a primeira coisa que se aprende na escola? não é soma, não são sílabas, não é ciclo da água… o que é? a primeira coisa que se aprende na escola é a sentar e calar a boca. mas o mais cruel, o mais vil, é o segundo aprendizado da escola. a segunda coisa que se aprende é que o que você quer aprender não é tão importante quanto o que um burocrata distante disse que você deve aprender. neste ponto o aprendizado já está completamente castrado, já que seu principal motor, a vontade de aprender isto ou aquilo, foi desligado. no caso específico destas comunidades esta sensação é ainda pior, e a anomia provocada pela escola ainda mais gritante, já que é somente dentro da escola, aquela construção diferente na comunidade, única de alvenaria, quente e de janelas pequenas, que aquele conhecimento faz sentido.

mas esqueçam dos parâmetros curriculares nacionais e perguntem aos estudantes o que eles querem aprender. na comunidade onde eu estava, por exemplo, era óbvio que havia um grande interesse em barcos e seus motores, assunto cotidiano. com algumas semanas de preparação seria possível organizar um módulo em que fosse possível agenciar conhecimentos de matemática, química, física, geografia e até história estudando os barcos da comunidade, e com interesse garantido dos estudantes. tive uma boa experiência na eja fechando o livro didático sobre vargas e abrindo o paradidático do carlos fausto e o senhores dos rios. as estudantes adoraram ouvir as descrições dos exploradores, perceber as semelhanças das formas de ocupação daquela mesma várzea quinhentos anos antes.

mas os currículos vem de brasília, são filtrados pelos materiais didáticos disponíveis e obedecidos pelos estudantes, quando deveriam partir das vontades dos estudantes, ser catalizados pelas habilidades dos professores e obedecidos pelos burocratas.

olho pro meu copo. está vazio. chega de café por hoje.

~~x~~
escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente em 12 de abril no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas

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o buraco é lááá em baixo, colega…

(segundo gole)

muita gente se assustou com a idéia do multisseriado, mas para mim é uma solução excelente. não existe, de fato, um bom motivo para agrupar os estudantes de acordo com a data de nascimento, não é como se eles fossem produtos, organizados por lote e data de fabricação. há diversas outras formas mais inteligentes de agrupá-los, de acordo com seus interesses ou dificuldades, por exemplo. ou poderíamos deixar que eles mesmo se organizassem. a escola da ponte, famosa experiência pedagógica libertária portuguesa, salvo engano, trabalha em um regime que poderíamos chamar de mulstisseriado, e várias destas escolas alternativas caras tem experimentos nesta linha. o multisseriado resolve, por exemplo, a tal marginalização promovida pela repetência, visto que os estudantes permanecem na mesma turma, embora sob cuidados diferenciados.

no caso de maraã, e dos demais municípios do interior, isto provavelmente foi determinado mais pelas circunstâncias que por alguma opção político-pedagógica. na comunidade onde eu estava devíamos ter cerca de setenta estudantes matriculados, uns quarenta e cinco frequentes, entre jardim de infância, primeira a sexta séries e duas turmas de EJA, para três professores. com o multisseriado possuíamos quatro turmas, mas se os dividíssemos em séries específicas passaríamos a nove, algumas com um ou dois estudantes, duplicando a carga horário dos professores e os gastos do município. com meus dois cargos eu possuía trinta e cinco estudantes matriculados, uns vinte e cinco deles presentes. agora considerem que um professor de história do estado de minas gerais, com um cargo de dezoito horas semanais, tenha que lidar com nove turmas de quarenta e cinco estudantes. vamos supor que este professor mineiro seja especialmente ingênuo, o suficiente para se arriscar a avaliações dissertativas, assumindo que na base de marcar x não se anda muito. imaginem que ele peça aos estudantes um pequeno trabalho ou uma redação, nada muito grande, uma página. bom, este professor acaba de ganhar quatrocentas páginas para corrigir no fim de semana. se ele tiver dois cargos, como eu aqui e como quase todos os concursados depois dos cortes do aécio, ele tem o dobro disso. agora me digam, maraã ainda parece tão absurdo?

o fato de um mesmo professor dar todas as matérias tampouco deveria ser assim tão assustador. de primeira à quinta séries a maior parte das escolas sequer contrata especialistas em suas disciplinas, é o império dos pedagogos. disciplinas como estudos sociais, ou ciências, sempre foram muito bem aceitas, e no entanto não eram muito diferentes disto: professores ensinando mais de uma disciplina, em áreas que nem sempre tinham domínio. são experiências que poderiam abrir pontes de transdisiplinaridade, embora, via de regra, não o fizessem. novamente, o modelo de maraã provavelmente decorre da necessidade. História, Ciências, Matemática, Português, Geografia, Educação Física, Língua Extrangeira, temos sete matérias, nove se trocássemos Ciências por Biologia, Física e Química para as séries avançadas, dez se incluíssemos Artes, sempre esquecida. considerando que no parágrafo anterior havíamos duplicado os custos com professores da escola comunitária dividindo os estudantes em séries específicas, se exigíssemos um professor por disciplina neste parágrafo – e eu espero muito que o ministro esteja lendo isto – chegaríamos a conclusão de que a pequena maraã devia ter seu orçamento com professores multiplicado por algo entre quatorze e vinte vezes.

mas o buraco, pra variar, é ainda mais em baixo. mesmo que maraã tivesse entre quatorze e vinte vezes mais verba para educação, seja acabando com a corrupção dos coronéis, seja taxando toda a ocaína que desce o rio japurá sob as toneladas de brita das balsas, como vocês esperam convencer todos estes professores a se mudar para as comunidades para lecionar sete ou oito horas-aula por semana? a não ser que estejamos falando de uma comunidade de tipos-ideais soviéticos, onde quem torra a farinha também leciona química, onde os caçadores sejam geógrafos graduados, os pescadores biólogos e os que trabalham no roçado discursassem sobre linguística construtivista, a não ser que estejamos falando disto, não há o que falar.

o copo na minha mesa, impaciente com a lenga lenga deste texto longo longo, cheio até o topo com um café que só esfria, posto que eu só escrevo, me interrompe. “então é isto? tá tudo bom do jeito que tá? é o melhor dos mundos, cândido?” eu dou um gole. não, claro que não.

~~x~~
escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente em 11 de abril no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas

o buraco é láááá em baixo, colega…

um texto para meu copo de café
(dividido em três goles)

recebi muitos comentários sobre a descrição que fiz da escola na comunidade onde estive. sobretudo muita gente assustada, impressionada. uma amiga jornalista queria fazer uma matéria sobre o assunto, outra, socióloga, fez com que o post chegasse até o ministro da educação.

[rá! eu que passei boa parte da minha vida escolar esperando que meus textos desaforados chegassem aos ministros da educação, fui conseguir algum sucesso só no mais despreocupado deles!]

a falha é minha, talvez tenha pesado a mão num certo exotismo, compromissado que estava mais em mandar notícias para pessoas queridas que em descrever a situação escolar. o fato é que o que alguns identificaram como problemas no sistema educacional do interior do amazonas, são na verdade soluções bem interessantes. não me entendam mal, há muita coisa a ser denunciada, mas é preciso olhar pro fogo, não pra fumaça.

* * *

considerando as problemáticas de cada caso, algumas das opções de um município como maraã são muito mais inteligentes e criativas que as solucionáticas dos dadá-maravilha que carimbam pela secretaria de educação de minas gerais por exmplo.

imaginem a dificuldade de se organizar escolas em pouco mais de uma centena de comunidades com cerca de dez casas cada (mas podendo variar entre quatro e cem!), onde pouquíssimas pessoas passaram por algum processo de escolarização. tenham em mente que a única forma de se chegar a estas comunidades é pelos rios, horas de distância umas das outras. imaginem ainda que estas comunidades não sejam estáticas, que a migração seja extremamente comum e que o tamanho das comunidades possa variar, ou até mesmo que elas possam se desfazer, ou que uma nova possa surgir em um outro entroncamento de rios. este fluxo permanente, no entanto, não significa que os comunitários estejam prontos a aceitar os desmandos da secretaria de educação (semed), muito pelo contrário, cada mudança precisa ser detidamente conversada e acordada. entre os professores há o caso famoso de uma presidenta de uma comundiade que esperava a secretária de educação de borduna em mãos. exemplo que alguns de nós esperávamos ser seguido pela outra presidenta.

não se pode esquecer do fluxo do rio! nas cheias os estudantes vão pras aulas de canoas, mas em cheias muito grandes, como no ano passado, as aulas precisam se interrompidas. quando as secas são muito fortes, como a última, muitas comunidades ficam isoladas, em algumas os pescadores precisam de gastar mais tempo na pesca, dificultando a presença deles e seus filhos na escola. creio que nas comunidades em terra firme haja algo semelhante com a caça e o roçado. durante alguns períodos do ano em que a comunidade se mobiliza para alguma produção específica, pesca manejada, chocolate ou castanha por exemplo, a presença em sala de aula é mínima. o fluxo do rio também é determinante para o contato com as cidades, e isto inclui a chegada ou partida de professores, víveres e materiais para a escola. sem contar o diesel, fundamental para o motor de luz que, em situações normais, garante escassas três horas de luz diárias.

* * *

faço uma pausa para passar um café.o texto está ficando muito longo, será que alguém ainda está lendo? será que o ministro leu? na verdade importa pouco, escrevo para meu copo de café.

~~x~~
escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente em 10 de abril no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas

sms

não eram nem onze horas quando meu celular apitou com uma mensagem.

oi, na realidade já colocaram outra pessoa na vaga k seria sua, estão tentando lotar vc em outra comunidd, o [fulano que havia gostado do meu currículo] tá ate pensando em pedi a conta. é como disse, sec[retaria de educação] não tem autonomia, quem manda e desmanda é o prefeito e ele não kr gent formada é + comodo p ele.

nem um mísero bom dia a efeito de lubrificante. e foi assim que tomei minha terceira porta na cara.

quem me mandava a mensagem era uma funcionaria da Secretaria de Educação que havia simpatizado comigo. Mais tarde trocamos alguns emails e fui informado que o todo-poderoso prefeito a estava transferindo para uma comunidade longínqua. Era uma retaliação, já que ela havia ousado convocar o Conselho de Educação para discutir alguns problemas na Secretaria, incluindo a completa inexistência de livro didático. Não perguntei, mas tive a impressão de que a comunidade devia ser chamada Nossa Senhora da Sibéria.

também fui informado que não havia ninguém graduado na Secretaria de Educação do município, e que o prefeito queria que continuasse assim.

Como eu dizia, o multisseriado é o menor dos problemas do interior do Amazonas.

~~x~~
escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente em 09 de abril no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas

vago

depois de dois meses no interior eu tinha ido a manaus resolver umas coisas, complicar outras, ver no que dava. o recreio chegou cedo, perto das cinco da manhã. deixo uma amiga no taxi, anoto a placa e espero o dia amanhecer. amanhece e começo a andar pelo centro de manaus a esmo, seguindos os fluxos, só pra ver, só pra andar. o trânsito ainda preguiçoso, as lojas ainda fechadas, mas os camelôs já ativos, montando barracas, distribuindo produtos pelas calçadas, disputando palmo a palmo as esquinas, medindo as ruas. imponente, um camelô com espírito de leônidas desafia a curva do corredor de ônibus com sua barraquinha, aparentemente disposto a voltar pra casa com sua barraquinha ou sobre ela. e os ônibus passam zunindo, gritando, não mais que ele, é claro, oooolha o dvd, colega, baratinho!

o centro está cheio de casas antigas, com suas datas inscritas no topo, principalmente da virada do século, do início da república, quase sempre desabitadas, com as portas fechadas com tapumes e muita erva daninha escorrendo pelas paredes. algumas janelas quebradas deixam adivinhar verdadeiros jardins dentro das antigas construções, árvores já grandes, mamonas, mamões e até manga. não se preocupem, não vou falar que “a floresta toma de volta…” qualquer coisa, seria uma bobagem. não só porque não há a floresta, como porque não é uma questão de toma-lá-dá-cá, uma jogo de xadrez entre uma natureza e uma cidade encarnadas, este mito meio religioso de um homem que é outra coisa que não natureza. mas as casas não deixam de ser imagens interessantes, peculiares.

fui ao banco e percebi que estava duro, duro, duro. fiquei uns quinze minutos olhando pro caixa automático, como que esperando que algum TILT me desse uma bola extra. nada. tinha 20 reais no bolso e nada mais. saí, comi uma tapioca com manteiga e um suco de cupu com umas senhoras perto do porto. voltei ao banco, disposto a sacar meu paraquedas, aquela grana guardada para uma emergência, aquela que tinha dito que não ia pegar. mas o banco tem mais palavra que eu e diz que eu não posso pegara grana em menos de quatro dias. beleza, parei no único banco de palavra do universo. tento no caixa ao lado, dá no mesmo. deve ser alguma epidemia. recorro ao crédito, o agiota do homem moderno, branco e civilizado. nunca falha. saio pra caminhar de novo, antes que quebrem minhas pernas.

não sei se havia me desacostumado ou se era influência do meu humor, mas o trânsito de manaus é o caos e a treva, como diria um conhecido. vou andando e matutando sobre as dívidas, os empregos, as portas na cara, e então começa a chover. beleza. ótimo. bom mesmo.

procuro uma marquise. de repente olho pra frente e um michael jackson caboclo, de roupas rasgadas e cabelo brilhante de um produto qualquer está passando o chapéu em meio a um tanto de gente. ele se desculpa a todos, dizendo que vai fazer jus ao dinheiro e que, mesmo que chova, ele vai dançar. ele era caboclo, tinha a pele envelhecida pelo sol, o cabelo raspado nas laterais e longo em cima, cacheado mas esticado, brilhante, sua jaqueta preta possui um imenso rasgo debaixo do braço, suas meias brancas estavam sujas, escurecidas, seu chapéu amassado. mas a ginga estava intacta! e ele estava ali, na chuva, em meio a gritinhos, caminhadas acompanhadas de estalos nos dedos e no matters if you are black or white. Não havia gilberto freyre suficiente para lidar com a cena. a música acaba, a chuva diminui, meu celular toca, me levanto e vou para a rua lateral, para não atrapalhar o espetáculo. volto por dentro de uma pastelaria, e quando chego o michael jackson mambembe está no meio de she’s just a girl who claims that i am the one! but the kiiiid it’s not my son!, ele corre até o som, diminui o volume e diz quando eu der o passinho pra trás, vocês aplaudem, tá? é o passinho que mais gosto!ele dá um moonwalk desajeitado, vago, e eu aplaudo efusivamente, só eu, depois mais um, depois mais outra, e só. vou embora com a billie jean mambembe na cabeça, resolver meus problemas e arrumar outros.

 

~~x~~
escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente em 06 de abril no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas