causos

um dos professores que transitou por aqui, o Tiô, é um contador de causos. tem vinte e quatro anos e uma esposa grávida esperando por ele na cidade. é professor há dois anos e foi lotado para uma comunidade em terra firme, onde será o único professor dos sete estudantes locais. foi mal avaliado em sua última comunidade, aparentemente por uma fofoca sobre ter fotos pornô em seu celular. ele conta que só vai usar cinto no dia em que topar com uma onça e roubar o rabo dela. conta também que em uma comunidade onde trabalhou tinha poooouco carapanã, tanto que durante um velório que invadia o fim da tarde, apareceram tantos, mas tantos, que a velha senhora morta se levantou e pulou no rio.

a comunidade onde ele daria aulas este ano ficava distante umas duas horas de rabeta por um igarapé. fomos até lá para uma reunião com a comunidade. na ida me deixaram pilotar a rabeta, emprestada de um comunitário, e logo que encostei no motor um boto saltou bem na minha frente, enchendo meu coração de hippiece. na comundiade deviam ser umas sete casas, e o igarapé deles secava vez ou outra, aumentando ainda mais o isolamento. a riqueza da terra firme chama a atenção. vi logo vários pés de fruta e ouvi sobre as cutias, queixadas e antas que eles caçavam bem perto. a barulhada dos passáros era incessante e vi uma arara tão grande que mais parecia um gavião.

na volta passamos no flutuante da presidenta da comunidade pra comer um mingau de banana e ela nos convenceu a ir até seu sítio, onde enchemos nossa rabeta de limão, tucuman, cana e castanha.

mais tarde Tiô nos contou de um velho de Maraã, caolho, rico e com duas esposas na mesma rua. Tiô nos contava que o velho sempre contava da vez em que foi caçar uma onça que estava comendo seu gado. ele espreitava na floresta de noite quando viu a a onça bem pertinho, detrás da castanheira onde se escondia. o velho caolho, rico e com duas esposas na mesma rua agarrou o rabo da onça e girou, girou, até que a pele dela soltou todinha, e ela, assustada, foi se esconder atrás de outra castanheira, tapando as vergonhas com as patas.

nos dias que seguiram minha gula pelas castanhas, tucumans e canas daquele dia foram punidas com uma inclemente caganeira. de fato, a única coisa da qual eu senti mais falta que pessoas, foram fibras.

ai, como eu senti falta das fibras!

~~x~~
escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente em 21 de março no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas

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