Artesanato

cenário: avião. os dois personagens estão sentados lado a lado.

personagens: G. – tefeense, ativista e com a caboclice estampada na cara.
P. – policial civil, branco, de algum lugar ao sul do Piauí.

P. – você é do Amazonas?
G. (com preguiça) – sou.
P. – tem muito artesanato lá na sua terra?
G. – tu tens um celular aí?
P. – tenho. aqui, ó.
G. – este aí é artesanato lá da minha terra. da zona franca de manaus.
P. – :S
G. – (:
P. – (…)

verdade verdadeira.

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escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente em 27 de março no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas

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conversa

professor: comeste fogo, foi?
pau d’água: comi foi tua mulher!
professor: tu achaste que era minha mulher, mas comeste foi cutia!

e todo mundo ri. eu rio também, mas com aquela sensação de que não entendi toda a graça.

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escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente em 25 de março no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas

causos

um dos professores que transitou por aqui, o Tiô, é um contador de causos. tem vinte e quatro anos e uma esposa grávida esperando por ele na cidade. é professor há dois anos e foi lotado para uma comunidade em terra firme, onde será o único professor dos sete estudantes locais. foi mal avaliado em sua última comunidade, aparentemente por uma fofoca sobre ter fotos pornô em seu celular. ele conta que só vai usar cinto no dia em que topar com uma onça e roubar o rabo dela. conta também que em uma comunidade onde trabalhou tinha poooouco carapanã, tanto que durante um velório que invadia o fim da tarde, apareceram tantos, mas tantos, que a velha senhora morta se levantou e pulou no rio.

a comunidade onde ele daria aulas este ano ficava distante umas duas horas de rabeta por um igarapé. fomos até lá para uma reunião com a comunidade. na ida me deixaram pilotar a rabeta, emprestada de um comunitário, e logo que encostei no motor um boto saltou bem na minha frente, enchendo meu coração de hippiece. na comundiade deviam ser umas sete casas, e o igarapé deles secava vez ou outra, aumentando ainda mais o isolamento. a riqueza da terra firme chama a atenção. vi logo vários pés de fruta e ouvi sobre as cutias, queixadas e antas que eles caçavam bem perto. a barulhada dos passáros era incessante e vi uma arara tão grande que mais parecia um gavião.

na volta passamos no flutuante da presidenta da comunidade pra comer um mingau de banana e ela nos convenceu a ir até seu sítio, onde enchemos nossa rabeta de limão, tucuman, cana e castanha.

mais tarde Tiô nos contou de um velho de Maraã, caolho, rico e com duas esposas na mesma rua. Tiô nos contava que o velho sempre contava da vez em que foi caçar uma onça que estava comendo seu gado. ele espreitava na floresta de noite quando viu a a onça bem pertinho, detrás da castanheira onde se escondia. o velho caolho, rico e com duas esposas na mesma rua agarrou o rabo da onça e girou, girou, até que a pele dela soltou todinha, e ela, assustada, foi se esconder atrás de outra castanheira, tapando as vergonhas com as patas.

nos dias que seguiram minha gula pelas castanhas, tucumans e canas daquele dia foram punidas com uma inclemente caganeira. de fato, a única coisa da qual eu senti mais falta que pessoas, foram fibras.

ai, como eu senti falta das fibras!

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escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente em 21 de março no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas

La Commune

eu não havia percebido, mas o clima na comunidade estava tenso: a comunidade havia decidido pela permanência de um professor do ano passado, mas a secretária de educação, armada de caneta e carimbo, decidiu pela transferência do professor.

a comunidade tem trinta e nove construções, contando os flutuantes e as casas públicas (escola, casa do professor, casa de reuniões e etc.). existem duas igrejas, uma batista e outra deus é amor, e dizem os comunitários que vem um pastor montar uma assembléia de deus. as construções são organizadas lado a lado à beira do rio, para facilitar o acesso à água.

uma senhora faz um pão delicioso toda madrugada. além do pão ela vendecocão – um refrigerante genérico – e mikito – um chips de milho que todo mundo só chama de milito. lá no fim da comunidade, depois de uns pés de cana, seu acelino vende de tudo. sua rede fica suspensa entre cebola, açúcar, biscoitos e óleo de soja. só não vende álcool, que é proibido na comunidade. as crianças dizem que ele tem um bolão de notas assim ó, e que ele morava mais longe, até que recebeu algumas visitas de onça.

no fim da tarde todos os homens jogam bola e as mulheres se reúnem para conversar, com os filhos menores a tira-colo. as marcas da última cheia na parede das casas de palafita tem pouco mais de um metro acima do piso, mas me contaram os comunitários que nestas situações costumam subir o piso (sim, isto mesmo) até a altura necessária para não se molhar. neste período vão para a aula de canoa. a escola é a única construção de alvenaria, talvez por isto a mais quente. são duas salas de aula, uma secretaria, uma cozinha com dispensa anexa, dois banheiros e duas pequenas suítes. também é a única construção com banheiros, fossa e com uma caixa d’água, enchida durante as três horas de luz elétrica diárias e esvaziadas antes do meio dia. a antigas escola, menor e de madeira, se transformou na casa dos professores, onde moram alguns e onde cozinhamos, conversamos e jogamos purrinha valendo chulapa para passar o tempo.

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escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente em 19 de março no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas

TEC! ZIP!

eu pulo do ajato. duas mochilas, umas maleta, uma caixa, um balde e uma cachorra pulam comigo. basta eu tocar o chão pra escutar TEC! ZIP! o primeiro som era uma das alças do velho mochilão arrebentando, o segundo a cachorra se livrando da coleira e dando linha. ótimo, penso. deixo algumas coisas na beira e subo o morro com o resto. vejo algumas senhoras me acompanhando de algumas janelas. subo, me apresento para uma delas (oi! tudo bem? bem. meu nome é matheus, sou professor, sabe onde posso deixar minhas coisas? os professor fica tudo ali, ó, na escola, tão ali agora. posso deixar minhas coisas aqui enquanto busco o resto? pode, eu olho.) e deçodesço para buscar o resto.

na escola de alvenaria sou recepcionado pelo diretor e dois professores, todos simpáticos. me mostram meu quarto, num canto da escola, quente pra burro mas com banheiro! me informam que não terei um cargo, mas três. EJA, multisseriado e pro-info. também dizem que o salario real é menor que o esperado, não sei ainda se por culpa do governo – INSS, FGTS e etc. – ou se apesar do governo – e aquele tal piso salarial?

no meu quarto dou uma varrida leve e expulso metade das aranhas. deixo porém algumas dezenas, na esperança de que elas retribuam a gentileza comendo outros insetos. na porta do banheiro um bicho me espia. é imenso, comprido, preto, tem várias patas e duas longas antenas. eu o espia em retribuição. ficamos assim por longos minutos, nos avaliando, nos medindo. ele mexe as antenas e eu alcanço a vassoura. que porra de bicho é este? merda. merda. será que pica? merda. na minha cabeça repasso todos os programas de tv sobre insetos nojentos. saio do quarto na esperança de ver alguem de bobeira. nada. o diretor dorme e o outro professor dá aulas. demoro uns 5 minutos pra concluir: é uma barata. a maior de todas. a mãe de todas. uma barata. merda. mato esta e depois mais 3, menores e com mais cara de barata. uma quinta foge para a floresta e eu grito “e conte pras outras da sua laia o que viu por aqui!” me arrependo do grito. matei uma média de 3 destas por dia.

começo uma faxina mas acaba a água da caixa e, cansado demais para descer à beira, peduro rede e mosquiteiro e macunaímo “ai que preguiça”.

amanhã vamos dar uma faxina na escola e dar um jeito nos morcegos que ocuparam o sótão e cuja bosta escorre por algumas paredes.

me convidam para jogar bola, mas declino, culpando a viagem. hora ou outra vou ter que jogar, penso, e logo macunaímo outra vez.

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escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas