vim, vi, perdi.

vim, vi, perdi.

infelizmente percebi que me manter com os cargos de professor na comunidade ou não é sustentável ou não é responsável.

ao contrário do cargos nas cidades, nas comunidades o professor não é responsável por uma matéria, mas por uma turma. no EJA preciso ensinar biologia, matemática, geografia, história, português e inglês. no tal multisseriado a coisa complica ainda mais, já que tenho, na mesma sala, estudantes da segunda à quinta séries, com idades entre seis e quartoze anos. dos trinta estudantes uns seis deviam saber ler e algo próximo disto sabia somar. alfabetizar não é tarefa fácil, principalmente para alguém que nunca sequer refletiu no assunto.

meu terceiro cargo merece uma nota especial. se trata de um tal Pro-Info, e me disseram que deveria ensinar os primeiros passos das ferramentas básicas da informática: office e internet. o pro-info já funciona em algumas comunidades-pólo, e deveria estar funcionando nesta há anos, e para isto já haviam sido comprados cinco computadores, um gerador próprio e uma power antena parabólica para a internet. como aqui, em várias comunidades o curso nunca chegou a começar. a comunidade onde estou lotado, no entanto, caiu de ser sorteada para a fiscalização no dia quinze de março, e agora a secretaria de educação tenta montar o curso às pressas.

minhas dificuldades de prática poderiam ser resolvidas com algum esforço, verdade, embora eu tivesse que abdicar de meu projeto bacanudo de história-oral-regional-multimídia-supimposa. mas a dificuldade real era outra: meus horários impediam que eu fosse a tefé nos fins de semana. na verdade, pelo calendário escolar eu teria quatro oportunidades de descer o rio: quinze dias de férias em julho, a partir de dezessete de dezembro e um feriado de três dias no segundo semestre.

se fico na comunidade até o fim do ano, me mantenho distante e tenho que ensinar coisas que não sei da forma que não me interessa. ficar distante seria razoável pra mim até maio, afinal de contas tefé não possui assim tantos encantos, mas em junho deve chegar uma moça bonita por lá, e não quero passar o resto do ano longe dela. não seria sustentável.

se fico na comunidade até o meio do ano e daí peço minhas contas eu resolveria boa parte do problema da distância e ainda faria um bom pé de meia. (ah, não comentei disto, né? cada cargo paga mil e duzentos pilas, mais duzentos de auxílio-rancho). no entanto não é fácil conseguir substitutos, e é provável que a comunidade ficasse sem professor durante o segundo semestre. não seria responsável.

converso com meu diretor e decido pedir minhas contas durante a semana da reunião pedagógica, quando todos os professores do município estarão juntos e a secretaria ainda terá facilidade em me substituir.

conto para algumas das crianças com quem brincava de quebra-cabeças, que respondem sempre espartanos. baixam os olhos, fecham a cara e, soltam umvai, é?, ou um hmm. mais tarde, quando já estava na cidade, encontro com uma comunitária, estudante minha de EJA e mãe de um estudante do multisseriado. uns dias antes havia me presenteado com um delicioso bolo de mandioca. ofendida, me pergunta se era verdade que eu não retornaria.

arrisco dizer algo sobre eu voltar só para visitar, em feriados ou… mas aborto antes de terminar. mesmo verdade, ela não acreditaria. baixo os olhos, fecho a cara, hmm. ela, menos maternal que eu, não se sensibiliza.

* * *
update
consegui um trampo e vou pro interior amanhã cedo.

vou pra uma outra comunidade, de outra cidade, que fica bem mais perto e pode me permitir, se der sorte, vir a tefé todo fim de semana. provavelmente a cada duas semanas.

vou receber praticamente um quarto do salário, e trabalhar praticamente um terço, mas com coisas mais divertidas. na outra eu tinha 3 cargos e tinha que dar aulas de TODAS as matérias, nesta eu tenho um cargo e vou dar aulas só de história. Também não tenho que usar o livro didático – que na outra comunidade era um trem cabuloso escrito no governo fhc – e vou poder rachar naquele meu projeto maluco de história-oral-regional-multimidia-bacanuda!

provavelmente vou ficar no escuro por pelo menos duas semanas. daih dois dias de comunicação e volto pro lado escuro

* * *
update2

me deixaram esperando por 3 horas o barco pra comunidade. também não assinam carteira, é tudo por “folha de pagamento”. não fui hoje. não sei pra onde este barco vai…

~~x~~
escrito em fevereiro de 2011, publicado originalmente em 23 de março no extinto http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com
Tefé, Amazonas

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